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May 23, 2026

Papai Noel, Anjo da Guarda ou Lei Estatística?


"Depus a máscara, e olhei-me ao espelho.
 Era a criança de há quantos anos." 
                          Álvaro de Campos 

Filha Bel, você soube que em maio do ano passado perdi meu livro 'Obra Poética' de Fernando Pessoa? Fiquei muito triste, pois constantemente o lia e relia... Procurei, revirei, voltei aos locais que costumo frequentar: livrarias, lanchonetes, restaurantes, clube e etc. NADA! Pensei, e ainda penso que, talvez em algum desses momentos de arrumação às pressas, tenha ido parar no lixo, misturado por acaso a jornais velhos. Como certamente se lembra, trata-se de uma edição luxuosa da 'Nova Aguilar', que já nada publica há muitos anos. Procurei nos sebos da Teodoro Sampaio, em vão. Sugeriram-me consultar os vendedores da internet, onde encontrei, sim, alguns exemplares dele, mas que hesitei encomendar por desconhecer seu estado de conservação. Decidi que só faria tal compra quando fosse pessoalmente a uma dessas lojas.
Ocupado demais, fui adiando essa busca.
Até que, em 26 de dezembro do ano passado, lá pelo meio-dia, desci do apartamento pra tomar um café expresso nas redondezas.
Ao chegar à calçada, e virando à direita, rumo à Teodoro, noto que atrás de mim uma mulher empurrava um carrinho de supermercado, abarrotado de livros. Como percebe, isso já era um evento bem atípico pra aquela hora e local. Ela empurrava o carrinho, acompanhada do filho de uns 7 anos. Logo passaram à minha frente, pois eu ia devagar por estar muito atento à cena . Havia ali obras de grande valor: poesia completa de Drumond, Guimarães Rosa, Machado, Camões, etc. Comentei: "Parabéns, que bom gosto literário noto nessa sua 'compra de supermercado'!"
Pude entrever naquele amontoado de livros uma 'Prosa Completa' de Fernando Pessoa, da mesma Nova Aguillar, que adquiri junto do volume perdido, e que nunca sai de minha estante, pouco lida, talvez porque o 'Livro do Desassossego' me tenha desassossegado demais antes que chegasse a ler sua terceira página. Bernardo Soares há de me desculpar! Logo abaixo desse primeiro Pessoa, outro identicamente editado pela Nova Aguillar.
Pensei ao ver que havia dois volumes: "Pra mim a obra prosaica do Fernando jamais vai ser tão apreciada quanto sua poesia. Só isso pode explicar por que dois exemplares idênticos de sua prosa, publicada como volume gêmeo da Obra Poética, mas de conteúdo tão maçante, estão a caminho de algum sebo. Certamente serão vendidos no esquema ‘gato por lebre’".
Quis,então saber do ano de sua publicação, pra ter uma idéia de por quanto tempo a Nova Aguillar os produzira. Pedi licença e retirei-os do carrinho.
Tive a deliciosa surpresa de perceber que o outro volume não era senão a minha tão procurada "Obra Poética" de Fernando Pessoa, a mesma que perdera havia 7 meses. Disse de imediato àquela bela mulher:
"Que maravilha, você tem o livro de poesias procurado por mim há tanto tempo!"
E fui direto ao assunto:
"Pensando em vendê-lo pra alguém?"
Já diante de um porta-malas aberto, onde colocaria todas aquelas preciosos livros, respondeu:

--"Não estou vendendo, e sentindo o quanto gosta dele, dou de presente pra você. Fique com ele!"

Incrédulo, disse:

"Mesmo sem ter religião, vejo em você uma anja, vinda pra me presentear com algo tão precioso e raro".

Ela: "Ora, o anjo é você!"

Tomando meu café, lendo já poemas no meu novo Pessoa, pensei na probabilidade de isso ter acontecido dessa forma, por acaso e num dia 26/12. Pergunta inevitável: Foi Papai Noel, ou foi um anjo-da-guarda, cuja existência ouvi um rabino assegurar poucos dias antes, no Chanukah, com toda seriedade? A explicação estatística pela 'Lei dos Grandes Números' bastaria pra liquidar com a interpretação místico-mágica desses eventos?
Ou devemos pensar que a estatística não passa de um saber matemático limitado, útil apenas como uma quantificação de ignorância diante de eventos inexplicáveis.  
Qualquer que seja nossa resposta a isso, fatos como esse que vivenciei põem cheque a visão empírico-racionalista que domina a cultura contemporânea, já há séculos. A probabilidade de sua ocorrência com todos os seus detalhes, calculada ex-ante, ou seja, antes de ter acontecido, é um limite tendendo infinitamente a ZERO! E dentre tais detalhes, não deixo de frisar sua ocorrência em época de dar e receber presentes.
Lembremos que eventos de probabilidade zero, são ditos impossíveis.


                                                    ΩΩΩ


O autor deste relato publicou o romance 'A Última Coruja', disponível na amazon.com.br, e outro sítios.

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