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March 13, 2026

Niilismo e "Dias Perfeitos", filme de Wim Wenders.

'O deserto cresce! Ai de quem esconde desertos!' Nietzsche

Desafio primordial para a vida humana em sociedade foi, e é, lidar com a guerra de todos contra todos, de modo a que os indivíduos suportem as dores decorrentes do  convívio. Pra isso, nossos instintos, tão poderosos quanto irracionais, frequentemente fonte de conflitos sangrentos e letais, precisam ser domados desde o nascimento.
Entretanto, domar o que há de mais indômito no Homo sapiens, é uma tarefa de Sísifo, aquele cujo castigo divino é levar morro acima rocha pesadíssima, que, ao chegar no cume, rola sempre de volta ao vale, exigindo a repetição do mesmo esforço, num sobe-desce eternamente igual. Assim como a gravidade leva a rocha abaixo, os desejos humanos, quando amordaçados, recalcados e reprimidos, jamais perdem força. Pelo contrário, via-de-regra, revigoram-se, fortalecem-se. 

Numa certa etapa da história humana, acredita-se numa recompensa no além-mundo para os que tiverem vida regrada, ‘bem’ comportada. As mazelas da existência cessarão na morte, pois a seguir virá a paz eterna, destinada só para os "bons e pios", que se resignarem diante das dores deste mundo, tão efêmero. Crê-se em coisas como o Céu, o Inferno, e a Providência a proteger quem conseguir viver e não pecar. O sentido de se tolerar este mundo, está, pois, fora dele, a nos esperar depois da morte.
Desde o 
Renascimento, todavia, não se leva mais essa idéia de além-mundo a sério. É a isso esse que Nietzsche se refere quando Zaratustra anuncia que "Deus morreu".

Controlar impulsos pra ser recompensado no Além já não aplaca as dores de viver, como antes, é preciso fugir das fontes reais do sofrer inevitável. Impõe-se abafar todo impulso vivo, todo desejo portador da possibilidade de frustração, confronto, guerra, e destruição.

O convívio social, na metáfora do porco-espinho, de Schopenhauer, gera sempre, cedo ou tarde, cutucões sangrentos. Os espinhos vêm dos nossos desejos a confrontar-se com os quereres alheios. Instintos jamais são plenamente complementares entre indivíduos, exceto por breves períodos de ilusões compartilhadas.
A paz só se assegura através da negação, da recusa radical de tudo o que pode gerar risco, disputa ou frustração. Os Dias Perfeitos de Hirayama não podem ter envolvimento amoroso, apego afetivo, competição, corrida por dinheiro, vínculo familiar, ambição profissional. Tudo o que pode nos dar prazer é arriscado, gera conflitos e feridas mais ou menos cruentas, tantas vezes letais seja no curto ou no longo prazo. A ‘perfeição’ dos dias do protagonista está em contentar-se com esse seu único objetivo: a paz verdadeira e duradoura, que em nada se distingue da paz dos cemitérios.

Lembro aqui um aforisma da literatura brasileira, que ajuda a compreender a escolha de Hirayama:
Riobaldo Tatarana de "Grande Sertão, Veredas", do grande escritor filosofante, João Guimarães Rosa, diz:
'Viver é muito perigoso!'
Diante dessa verdade, a opção do 'último homem’[
letzter Mensch] de 'Assim falou Zaratustra’, que Hirayama encarna à perfeição, é esquivar-se a todos os perigos. Ele apenas perdura sobre a Terra, numa solidão atroz, vazia de toda expectativa.

                                                       ΩΩΩ

Dias Perfeitos 2023,de Wim Wenders

Obra-prima de Cinema e de Filosofia. Imperdível.

 

 

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