Apresentamos aqui, através de um conto em estilo mítico, uma forma alternativa
de também especular, à nossa maneira, sobre as raízes mais profundas do nosso
funcionamento mental
ALEF
Formavam uma horda errante:
ele, então único macho, cercado por inúmeras fêmeas a deliciar-se em orgias intermináveis.
Deslocavam-se, dia após dia, acompanhando o fluxo da caudalosa corrente. Até que numa manhã fria se surpreenderam ao avistar o mar de altas e salgadas ondas. A partir dali,
sempre a se amar e a procriar, a orla marítima é que lhes dava a direção. Alef não quis seguir pra onde o sol morria todo fim de tarde, preferiu o rumo daquela terra que paria o novo sol todas as manhãs.
Em certo amanhecer muito quente de verão, ao dar-se conta subitamente de que
mulheres mais velhas já não despertavam seu desejo, Alef as abandonou. Estas,
porém, ainda que separadas do grupo que permanecia junto dele, passaram a
seguir suas pegadas na areia. Assim, poderiam ainda observá-lo, mesmo que só à distância, pra alimentar seus sonhos e devaneios com os olhar de Alef.
Sedento de vida, ansiando por todos os tipos de êxtase e maravilhas, ele continuava a buscar por novos corpos quentes, fortes, lindos e
ávidos.
Tanto pelos que o tinham a seu
lado, que ainda podiam oferecer-se a sua luxúria infinita, quanto pelo grupo
rejeitado, aquela horda de errantes crescia.
Alef trocava, então, cada vez
mais, amantes envelhecidos por jovens adolescentes nascidos de seu grupo. Pouco lhe importava seu gênero, e tanto umas quanto outros deixavam-se por ele seduzir, ao revelar-se parceiros doces, gentis, constantes.
Alef não tinha nome algum, assim como ninguém nem nada entre eles. A única vocalização de todos de sua horda eram os gemidos e gritos das orgias.
Então, veio um certo amanhecer em que avistaram um novo mar, ou lago, extremamente salgado, denso, a ponto de só pedras e rochedos irem ao fundo em suas águas. Parecia não abrigar qualquer peixe. Assim, durante o percurso ao longo daquela nova margem, só pequenos animais do deserto serviam-lhes de alimento, tendo que ser caçados com dificuldade por entre os rochedos. Portanto, foi com muita alegria que, num amanhecer dourado chegaram à foz de um rio, cuja água doce desembocava naquele mar tão salgado. A partir desse dia, tendo fácil acesso a comida, aquela horda nômade pôde parar de perambular tanto, e fixou-se ali por muitas estações. Foi nesse bom tempo e lugar que Alef atingiu a plenitude máxima de sua força e beleza de macho humano. Apaixonava-se por moças assim que via o desejo quente e maduro em seus olhos, e abraçava cheio de ternura os rapazes em que percebia ombros largos o bastante, peitos peludos, coxas musculosas. Esses jovens, gerados nas fêmeas da horda, entregavam-se a ele em êxtase, e o amavam com a fúria dos leões no cio.
Muitos outonos antes, uma das fêmeas mais belas dera à luz um menino, que logo se pareceria muito e cada vez mais com Alef: no rosto, no cabelo, nos olhos, na sede de poder. Assim que o primeiro desejo forte de rapaz lhe brotou, ele e uma linda mulher, que poderia ser a que lhe deu à luz, possuíram-se explosivamente.
Presenciando essa repentina fúria amorosa perto de onde dormia, Alef, foi tomado por selvagem tesão tanto por aquele jovem musculoso, quanto pela sua penetração em uma de suas mais lindas amantes. A seguir, em meio aos rochedos e à margem direita do rio, já perto da foz, aconteceu o encontro numinoso: o rapaz, a primeira mulher que amou, e Aleph. Os três nus, a tocar-se e beijar-se loucamente, as ereções intensíssimas imitavam a dureza das pedras ao redor. Abraçaram-se, entrelaçaram seus corpos e uivaram como lobos por toda a noite mais quente daquele verão.
Por serem dois homens idênticos, eles poderiam ter prosseguido sempre a viver e a amar
lado a lado, compartilhando cada uma daquelas lindas e daqueles lindos amantes.
Quem seria capaz de diferenciar um do outro? E pra quê? Tal teria sido seu
destino de homens fortes, selvagens e ávidos por orgias intermináveis. Seriam
capazes de levar uma só vida de prazeres, a seguir com sua horda para sempre rumo
àquela misteriosa terra de onde nasce o sol.
Entretanto, algo de novo e insuspeitado, veio a interromper o que parecia ser
o fluxo espontâneo natural de suas vidas. Tal fato, diferente de tudo que tinham vivido, deu-se numa daquelas noites de orgia, logo ao final de um intenso e
ruidoso ménage-à-trois. Quem sabe por ter gerado, o rapaz em seu próprio
corpo, a mulher se deu conta de que o desejava com mais tesão do que o que sentia por Alef. Por isso, e pela primeira vez, pôde distingui-los. A seguir, lançando poderoso feitiço contra o mais maduro, deu-lhe um nome: 'Pai'.
Tendo um nome, Pai, não seria mais confundido com o jovem. O
entrelaçamento de suas identidades, que lhes proporcionara tantos momentos de
êxtase, não existia mais. Tentaram, então, a apelar pra suas doces lembranças, repetir o
trio extasiante e uníssono, empregando agora as mesmas carícias, os mesmos beijos, abraços, e toques de mão,
que haviam levado aos momentos de clímax. Houve alegria, júbilo, mas foi
por tudo impossível alcançar aquele mesmo ritmo simultâneo que os levara a
chorar e a gritar juntos. Perplexos, puderam então observar outro feitiço
dela: chamou o gozo tido com Aleph de 'o Passado'.
O outro orgasmo, mais forte, tido com o jovem, chamou de 'o
Futuro'. Àquela sensação de tédio e frustração perturbadores em que os três se
encontravam pouco antes do amanhecer, chamou de 'o Presente'.
A partir de então, como seres
individualizados, com nomes e noções sobre um fluxo unidirecional de tempo, Filho e Pai, odiaram-se. Aleph expulsou violentamente Filho,
fazendo com que se juntasse aos rejeitados. A mulher matriz das palavras o
acompanhou. 'Filho e Mãe', dois nomes que ela acabara de inventar, frustrados e
infelizes, ainda puderam conceber outra dimensão do tempo: a de uma vida que
teria sido possível se o trio de amantes não tivesse sido desfeito, se o seu
amor incendiário ainda pudesse existir como antes. Filho e Mãe nomearam esta
dimensão temporal imaginada, que poderia ter sido, ausente e inatingível, de 'Eternidade'. O orgasmo
explosivo e simultâneo daquele trio, impossível de expressar em palavras,
chamaram de 'Deus'.
Entre os rejeitados, que só sobreviviam por sonhar e devanear com os olhos de
Alef, Filho, fisicamente tão semelhante a ele, logo foi admirado e desejado
por todos. Mãe decidiu ensinar a todo o seu novo grupo a feitiçaria dos nomes e
dos tempos. Visto que o gozo com o Pai era o Passado, sua condição de
rejeitados, o Presente, o orgasmo provável com Filho, o Futuro, e a felicidade que
poderia ter sido — mas nunca se deu — a Eternidade; os rejeitados sentiram-se capazes de se afastar do brilho dos olhos de
Pai. Assim decidiram, numa tarde de outono, quando Filho lhes falou de “Deus”, uma alegria, um clímax orgástico indescritível, impossível até de colocar em palavras suas nuances tão preciosas, com seu ritmo triplo tão sublime e harmonioso. Sim, inútil tentar dizer algo sobre a
intensidade de Deus ou mesmo sobre a veracidade de sua existência. No entanto,
ao tentar transmiti-lo para sua nova horda, Filho criou um conjunto mágico e
requintado de sons e cadências, para espanto, maravilha e fruição de todos.
Assim, ele inventou a Música.
O grupo dos rejeitados, em que apareciam cada vez mais nomes — designando tanto coisas quanto idéias ou sensações — seguiram em direção ao sol poente, trazendo de Alef lembranças daqueles dias de luxúria, tanto quanto a dor de nunca
mais poder ver seus olhos. Nunca, nem mesmo através das infindáveis gerações
subsequentes, foram esquecidos aqueles encontros orgiásticos a três, nem as
palavras que Mãe ali criara: Infinito, Beleza, Passado, Eternidade, Deus.



