
Os humanos foram criando leis e religiões pra evitar o sofrimento inevitável dos confrontos do convívio social.
Pra isso, os instintos, causa de disputas infindáveis, têm que ser domados já na infância. Todavia, essa tarefa é sempre incompleta, pois mesmo contidos, amordaçados desejos nunca perdem força.
Numa certa etapa da humanidade, acredita-se numa recompensa no além pra quem tiver vida bem comportada, as mazelas da existência cessarão para os "bons e pios", basta que se resignem diante das mazelas deste mundo tão efêmero. Crê-se, então, no Céu, no Inferno e na Providência a proteger os que conseguem não pecar. O sentido de tolerar o sofrimento neste mundo, pois, está no que nos espera depois da morte.
Desde o Renascimento, entretanto, não se leva mais essa idéia de recompensa no Além a sério. É a isso esse que Nietzsche se refere quando Zarathustra anuncia que "Deus morreu".
O convívio social, na metáfora do porco-espinho, de Schopenhauer, gera sempre, cedo ou tarde, cutucões sangrentos. Os espinhos vêm dos nossos desejos a confrontar-se com os quereres alheios, jamais plenamente complementares entre indivíduos, exceto por breves períodos de ilusões compartilhadas.
A paz só se assegura através da negação, da recusa radical de tudo o que pode gerar conflito, frustração e dor. Dias perfeitos não podem ter envolvimento amoroso, apego a pessoas, vontade de competir, corrida por dinheiro, relação afetiva familiar, ambição profissional. Tudo que pode dar prazer é arriscado, gera conflitos e feridas mais ou menos dolorosas, tantas vezes letais seja no curto ou no longo prazo. Portanto ,a perfeição só pode vir de um contentar-se com a paz. A paz verdadeira e duradoura, que pouco se distingue da paz dos cemitérios.
Frase que esclarece bem as escolhas de Hirayama:
Riobaldo Tatarana de "Grande Sertão, Veredas", do grande escritor filosofante, João Guimarães Rosa, diz:
'Viver é muito perigoso!'
Diante dessa verdade, a opção do 'último homem'[letzter Mensch] de 'Assim falou Zaratustra' é esquivar-se a todos os perigos. Ele apenas perdura sobre a Terra, numa solidão atroz, vazia de expectativas.

