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May 31, 2026

O Diabo Na Avenida, Em Alta Velocidade*


Em meados de abril, com os sinais de aproximação do solstício de junho, agudiza-se na mente dos paulistanos a melancolia. Então, medo e desejo de fugir desta megalópole dantesca crescem intensamente em todos, mas não é verdade que haja qualquer relação disso com a menor duração dos dias no quase-inverno. Multidões de homens e de mulheres se põem a chorar sozinhos pelos cantos, ainda que ninguém dê atenção a seus prantos. Apesar de toda essa amargura a preponderar na cidade-monstro, persistem uns poucos homens e mulheres desejantes e irreais, dispersos por entre as multidões desta bizarra cidade, surgida há cinco séculos como uma gota de fogo sobre uma região outrora paradisíaca de floresta tropical. Até o início do século 20, era pequena cidade provinciana, até que a riqueza trazida pelo café a fez crescer explosivamente, e tornar-se logo uma das maiores cidades da Terra. Abriga hoje uma infinidade de favelas, pessoas famintas, viciados em crack, jovens bonitos e excitados vendendo seu desejo, ladrões, velhos, mendigos, crianças abandonadas, dentes caídos.

A despeito de tais mazelas, este círculo corrosivo da Terra, de horrendas formas, transborda em riquezas, sempre concentradas nas mãos de reduzida minoria.

Humanos genuinamente irreais nunca foram mais do que uns poucos sonhadores românticos rebelados, raramente vistos ou reconhecidos por pessoas comuns. Dispersos pelo mundo, quase nunca esbarram uns nos outros. São, pois, grandes solitários.

Naquela madrugada tomada pela neblina, depois de um bom tempo a vagar inquieto por seu apartamento, Mario decidiu-se por uma caminhada pelo 'deserto de pedra'. Sim, pois se houve tempo em que São Paulo era chamada de 'selva de pedra', hoje já não há absolutamente nada nestas ruas cinzentas que evoque a outrora maravilhosa e densa floresta tropical. Sem dúvida, já não passa de um imenso e crescente deserto de pedra.

Apesar do friozinho, as roupas leves de Mario permitiam a visão de boa parte de seu corpo seminu, musculoso e lindo, enquanto percorria ruas, praças, becos, passarelas. Os irreais sempre evocam os desejos mais intensos em todos os que cruzam seus caminhos.

Pouco depois de ter saído à rua, ocorreu aquele encontro antes único do que raro, quase impossível, entre dois irreais: Mario e Emília, que logo estavam transando no canteiro central da Paulista perto do cruzamento com a Augusta, sob a forte iluminação da avenida. Sim, ousavam amar-se em plena rua, e ainda que só automóveis passassem por ali na madrugada, poderiam ser facilmente vistos. Entretanto, ninguém parecia notá-los, talvez pelo fato tão comum hoje em dia, de que se pode chorar sozinho a focar fixamente uma tela de celular, o que torna as pessoas incapazes de ver amantes nus em cópula furiosa, não importa quão lindos sejam; exceto talvez num vídeo pornográfico de uma telinha qualquer. Jamais em sua presença em 'carne e osso', ao vivo.

Depois do sono delicioso de nossos amantes irreais, algo absolutamente incrível aconteceu: uma enorme multidão de gente nua e linda irrompeu de todos os cantos, como se isso fosse possível, ou seja, real neste deserto de pedra. Ninguém parecia ciente de sua própria identidade, nem de seus objetivos, nem de seus rumos.

Todo irreal odeia chorar impotente e sem esperança, daí sua revolta espontânea e explosiva contra a chamada 'realidade', nome dado a esse número sufocante de regras absurdas, verdadeiros cabrestos impostos como modo exclusivo de convivência humana.

Vagando pelas ruas, a multidão irreal ansiava então por olhares profundos, sedenta de amor e de vida, ansiando por conhecer outros corpos e suas delícias.

Inegavelmente, pessoas irreais detestam certas palavras, caretas, gestos e atitudes reais, demasiado reais, dos humanos comuns.

Apesar dessa aversão, optam por nunca enfrentá-los, simplesmente ignorando os 'reais' demais. Os verdadeiros irreais só são capazes de amar e transar por toda parte, em todos os cantos da cidade, desregrados, mundo afora.

A multidão dionisíaca tomou, sim, todos os cantos de Sampa. Já não se podem ver homens e mulheres tristonhos, cabisbaixos. Os fluidos da vida escorrem pelos corpos que gemem e gritam juntos, como nunca se viu ou ouviu antes sobre este chão.

 

Ainda no auge daquela grande festa, Mario e Emília decidem fugir juntos, porque lhes parece que a orgia das massas já não os satisfaz. Escondidos em um beco escuro e minúsculo, eles se dizem:

"Eu te amo!".

"Eu também te amo!"

 

Alguns anos depois, Mario não consegue mais se lembrar daquela madrugada, nem da multidão dionisíaca.

Insistimos para que se lembrasse:

“Numa madrugada de outono, no meio da orgia irreal, você a conheceu, Mario. Que cena de amor espetacular vocês nos presentearam! Desde então, nós, humanos comuns, queremos voltar a ver sua foda selvagem, Mario! E nós o desejamos loucamente!"

Sua resposta:

“Vocês não entenderiam o que aconteceu conosco nem naquele mesmo dia, nem depois, amigos.

Os poetas dizem que toda aurora traz um mundo novo e maravilhoso, mesmo que nossos olhos não possam vê-lo. Que cilada! Uma doce e quente ilusão erótica, surgida como um sonho numa noite de outono não tem nada a ver com um novo mundo.

Emília e eu nunca poderíamos esquecer aquela foda furiosa na avenida Paulista! Todavia, nossa estranha sina foi selada por um descuido tolo, estúpido, ou por um medo derivado de uma verdade pesada demais.

Por puro acaso, saí de casa com um pãozinho no bolso. Não ia comê-lo, simplesmente porque nunca faço isso em minhas caminhadas pela cidade. Então, por quê foi parar no meu bolso? Estou certo de que nunca terei essa resposta, pois se viesse a ter fome, sabia que seria fácil comprar pão fresquinho, pois aqui as padarias nunca fecham.

Durante um amasso delicioso, aquele pãozinho pulou fora do meu bolso, direto para calçada. Claro que o deixamos lá, não interrompendo nossa transa.

Já perto de gozarmos, como que do nada surgiu uma enorme limusine preta a toda velocidade, cujo motorista, em roupas vermelhas bizarras, ao ver o pão no asfalto, parou a máquina e desceu.

Aquele tipo tão esquisito parecia ser só mais um na enorme massa dos solitários que choram incessantemente pelos cantos, becos e esquinas cinzentos de Sampa. Muito excitado com o cheiro de nossos genitais transando, ouvindo nossos gemidos, mas, incapaz por completo de ver nossos corpos irreais copulando, uma fúria intensa tomou conta de sua mente. Com o rosto muito vermelho, inquieto ao extremo, mortificado de inveja, sentindo ódio, medo, terror, aquele tipo sinistro, bizarro, pisoteou o pãozinho possuído por ira explosiva, em seguida voltou para sua limusine e fugiu do palco de nosso amor como o diabo da cruz, a 140 km por hora.

Despertamos com muita fome depois daquele gozo prolongado e divino. Emília e eu não tivemos escolha senão partir e comer o mesmo pãozinho pisoteado.

Sem dúvida, a decadência irreversível do nosso amor começou ali mesmo, naquela aurora da colossal explosão erótica."

Ficamos calados e deixamos Mario sozinho, calado em sua paz.

A paz dos cemitérios.


May 27, 2026

Your Eyes


                            Giotto’s fresco at Cappella Scrovegni, Padova, Italy 

"We may say that the sole one who performs a change here in this middle is Agilulfo, I do not say his horse, I do not say his armor, but that something solitaire, worried, looking forward, who is traveling on horseback within that armor. Around him the pine cones fall from the branches, the tiny canals scrolls through the pebbles, fish swim in the canals, the caterpillars gnaw the leaves, turtles walk over their hard belly on the ground, but all that is only a movement illusion in a perpetual turn back-and-forth such as that of water waves. And is in those ondulation turns that again and again Gurdulù, a prisoner of the carpet of things, is he, himself, also scattered in the same pasta with pine cones, fish, caterpillars, pebbles, leaves, mere outgrowth on the crust of the world".The Non-Existant Knight, (Il Cavaliere Inesistente) di Italo Calvino, in a free translation.
[Agilulfo is the nonexistent knight's name, the main protagonist whose condition gives title to this novel, and about whom it might be said he actually is, i.e., has an essence. Notwithstanding the fact that he does not possess any material body, at all. In contrast to his squire Gurdulù who exists concretely as a human body, but about whom it must be actually stated no kind of essence can be attributed]
When your eyes fled away from my reachable present time, then going to your other way of being, from then on quite distant from me; I glanced around myself, deciding right away to reconnect all those scattered remains of Universe, inspired by those German verses I had composed for you:
Wenn du nur ein Traum bist, 
wie arm die Realität! 

[If you are but a dream
how poor is reality!]
It dawned immediately that gaze of yours toward me, as our paths crossed in our college inner garden on that spring afternoon, having become eternal within my innermost being, was powerful enough to make me an insurgent transformer of reality itself.
The world had suddenly ‘rebelled against my wishes’, as it was said by ‘Zé Bebelo’, a character in the novel “Grande Sertão Veredas” by João Guimarães Rosa, when got aware that his gang was then exterminated on the battlefield and he, the only survivor, had become imprisoned by the enemies. Yes, I have begun to redo all that to which humans call ‘reality’, such a very naive and boring word! I started off rebuilding each small portion of the world we live in, right away putting an end to the perpetual flow towards a single, monotonous direction. How silly are these beings who self-impose such a heavy shackle, based on nothing but a stupid low belief according to which their lives inexorably go towards death and against birth! How heavy the fetters of such a self-scourging! That way, I became able to go through every moment of our past, in which your glance met my eyes. From then on, we were able to live all those emotions again, being enough for that, nothing more than a wish. But as you, Beatrice, have been fast able to intuit, I was avoiding to reach too soon that one, the very special, exquisite 23rd September glance, because of being certain my libertarian upheaval would then arrive at a paralyzing climax right there. How would it be possible for my deep self to recover control over me, under such a strongest spell? I had to to keep myself far from that moment like someone who is taking care of a most precious jewel. For that, I had to wander around you, around your eyes glancing at mine, like someone who is contemplating divine unreachable beings. Despite this, I was to remain very aware that such a jewel kept staying there always within reach of my insurgent hands. 
Playing like a naughty boy, I scoured the space-time continuum for each of those rare days in which you and I had been side by side. I touched your wonderful golden hair, getting enraptured again at each instant of the past on which I had seen you, and every tiny scene details could then be slowly repeated. Because of inverting the flow of events, I could multiply our silent tender glances. A weird and sinuous bad luck had many times kept us apart. Invading your dreams as so often your glances did with mine, I decided not to present myself as a character staging a defined role. Instead, very pretentiously I tried to imitate my preferred movie makers, directing the plots. You dreamed to be face to face with your own self right in the center of our college’s inner garden. Just there, on a flowering sunset, your gaze had so deeply pierced my innermost being, thence becoming the omnipotent driver of everything else in my life.
Dreaming, Beatrice, you met my dreamed Beatrice.
You could no be sure which phase of your life these images were coming from, in front of yourself, both Beatrice immediately agreed with me when I praised your blue eyes’ magic powers. But by no means this dream’s screenwriter would let even a tiny drop of compassion to be shown on that scene, falling to me exclusively the role of eternally in love, being repudiated any kind of passion with prefixes! Since, paradoxically, you started to be mine on the day when, within a certain, very poor, kind of reality — which soon was by myself eradicated from any possible world — you abandoned me.
At the first meeting, face to face with yourself, it would not be possible for you to avoid such an intense narcissistic ecstasy, not by any intrusion of my powers, nor do I think any kind of force, worldly or from beyond this Universe, could be able to interfere with it. Your own beauty consumed every desire of yourself, just like fire does with very dry branches.
Naked and surrounded by golden flowers, you got enchanted to see the gorgeous color of your maidenhair, then kissing your excited nipples, the face, and the red wet lips. You scented your hair and felt its delicious fragrance.
That unavoidable, and full of horny, prolonged idyll with yourself had to culminate in loud screams and groans in unison. Yes, notwithstanding you being two, your orgasm yells could be heard as a unison.
During those cries of pleasure and ecstasy, ceaselessly you were looking deep into your own sparkling blue eyes. 
The following night, both of you were sitting face to face: the Beatrice who remained within the banal, mediocre human world, in front of mine, the girl who could have existed in the inexorable flow of time, but who has searched refuge from it, having chosen to walk along a catwalk upon this world towards a , better existence within my dreamy world, in which we live on rebuilding everything. 
Starting to talk to my girl, soon you knew she hadn’t married the guy who plays the role of your husband in the concrete life.
“No, I refused him after reading some letters of a guy who was desperately in love with me."
Because of still remembering those letters, you then very surprised asked her what had been the sequence of those pre-marriage events.
“Have you stayed with Enrico, the guy who wrote those German verses, with a so impulsive passional love, able to make you suspect he could perhaps break out into the synagogue during the wedding?”
You have had, however, no answer. We know how to keep our secrets, besides why so many truths in a single dream?
You woke up a bit confused, now aware my Beatrice would no longer be so same as you these were your thoughts:
 — How was my alter-ego able to break out engagement so steeply, only a couple of days before the wedding, led by the verses and visionary fantasies of a guy who looked more like an impulsive wolf? Verses, well verses!’
You drove then to your parents’ home, trying to find those letters amidst old papers. Half-way, a small of those poems of mine was heard by you, as a strong hallucination:
Mein kleines, hübsches Mädchen,
meine kleine, hübsche Frau;
wen ich haben möchte,
wen ich haben werde! 
[My little pretty girl
my pretty little wife;
who I want to have
who I will have!]
Those letters were in a bedroom drawer which belonged to you since childhood. Keeping on kidding, I made you read then some sentences never actually written. In one of them, I would have warned you:
“If you leave me forever, mankind will forget the meaning of ‘forever’, and even time will cease to be perceived.”
In the next dream, my Beatrice made you see the enigmatic powers possessed by me. Such extraordinary abilities were evidenced when time’s flow was reversed according to our wishes, enabling us to revive together our best moments from those college years, whether had they taken place along campus’s hallways and gardens, or walking through São Paulo streets before dawn. She was showing to you this way how I made my Beatrice truly understand how explosively intense my passion is.
At this point, you asked her suddenly to bring myself too back there into such dreaming. You, too, wanted to live the past again. Right away, of course, I entered in this same dream, inviting you to rebuild the most intense scene from my memories: while reading a newspaper, or pretending to do so, I see you come walking in my direction. It is springtime’s first afternoon. You walk slowly through the garden flowers. When you pass just in front of me, I put aside the newspaper.
We look at each other, my glance meet yours, and your eyes meet mine.
I am struck by your lacerating gaze, exactly the one; the same glance, the same sparkle. Staging it all again, your eyes’ magic spell penetrates me as if concretely. I do feel its coming into my optic nerve, lodging within my innermost self, within a place certainly beyond my own awareness.
You might have already foreseen what would come next, Beatrice: your eyes’ enchantment revolutionized my whole perception of the world. There is, since that 23rd September, between all images arriving at my retina and their perception by inner self, the mighty shining of your eyes.
I became capable of making you mine and so never more letting you leave out towards the parking lot, when I, bewitched and unable even to know which eyes were mine or yours, followed your image till its fading among those countless cars.
I keep on visiting your dreams. However, as I expected, we are now unable to stage any other scenes than these:
Holding each other hands, we make up a new Giotto’s painting. Yes, I have found in the paintings of this renaissance Tuscan artist so many eyes identical to yours! We repeat our mise-en-scène: your slow walk, our face to face, your eyes taking hold of me.
We are going to dream this for all nights in our lives, Beatrice, until the moment when, after all concrete hindering be gone, we will be able to meet together again.
Face to face.
Eyes in eyes.
Together as we have always been.

Just one I-Thou essence through all eternity.


                      ΩΩΩΩΩΩΩ


This tale-poem may be read on the novel 'The Last Owl', a sample of which is available just through a CLICK HERE.

May 25, 2026

Dão


Mulheres, seres sublimes!
Dão-nos a vida,
O leite, nossos filhos,

Dão-nos o desejo,
O desejo do desejo,
E o amor ao amor, 

Dão-nos a beleza, sentido da vida,
E a umidade macia e quente,
Da portinha do paraíso!

Dão-nos a razão pra lutar, guerrear,
E morrer por amor.
Dão-nos tudo!

Só não nos dão a verdade!



May 24, 2026

Odysseus's Delight and Pain


Odysseus was warned to avoid the sirens, whose song was so wonderful, capable of completely dominate a male sense, would lead him and his oarsmen to sensual ecstasy and to the abandonment of all masks imposed by his 'I/Ego'. However, having been without Penelope's love for 10 years, and with desires on the verge of exploding, he could not contain himself and decided to go and meet them. Cunningly, he ordered his rowers to completely block their ears. He also ordered them to tie him tightly to the mast of the ship, so that it would be impossible for even he, such a muscular hero of the Trojan War, to free himself.
So, they sailed to meet the sirens, whose song indeed excited and bewitched Odysseus, taking him to the climax of climaxes of pleasure.
He begged his rowers to release him, in vain.
Anyone who has experienced a full encounter with someone's desires, body, and soul, one in which time hangs suspended, as if touching on Eternity, can glimpse the delight and pain of Odysseus upon hearing that forbidden song.
What pain?
The pain that comes with the imposed return of the everyday perception of time, making us go back behind the masks.

Ulisse sul Pacifico


Ad un mezzogiorno inoltrato, la nave giapponese da caccia alle balene salpò da Shimonoseki, un porto a metà strada tra Hiroshima e Nagasaki, verso i mari antartici circondanti quel continente ghiacciato e inospitale. Trasportava raffinati apparati tecnologici come nessuna altra prima: sonar, radar, droni, arpioni guidati all'infrarosso e così via. I satelliti in orbita erano pronti a localizzare qualunque branco di animali, cosa renderebbe ancora più veloci quei massacri. Ci si aspettava che questa potente nave iniziasse una nuova era di enormi aumenti di profitto per l'industria della caccia alle balene, benché i suoi controllori del capitale da decenni insistano nel dire che i loro obiettivi di caccia sono "esclusivamente scientifici".
Poco dopo aver attraversato la linea di Equatore, il suo comandante Ulysse Akira Nakama, ha avuto un sogno di immagini molto vivide, in cui una donna molto sensuale di nome Circe, dopo aver offerto a tutto l'equipaggio una sontuosa festa ha dato loro un avvertimento su un serio rischio, presto a minacciarli, che sarebbe arrivato come una melodia inebriante e irresistibile ma piuttosto fatale a cui nessun uomo era mai sopravvissuto.
Quella mattina Ulisse si è svegliato in panico, anzi senza qualsiasi motivo, perché presto si è ricordato che quelle immagini sognate appartenevano alla trama dell'Odissea di Omero, il grande poema epico sulle peregrinazioni marittime dell'eroe della Guerra di Troia, che ha vagato senza meta per dieci anni sul Mare Mediterraneo. Si è ricordato anche di Penelope, la fedelissima moglie dell'eroe, chi fu riuscita a ritardare la sua risposta agli innumerevoli corteggiatori mediante pretesti senza fine durante due decenni.
Questo cacciatore non possedeva nessun interesse particolare nella letteratura greca, anzi sua conoscenza di quell'epopea era dovuta a suo molto raro nome fra giapponesi, cui sempre causava tante interrogazioni sulla scelta fatta dai suoi genitori.
Sua madre gli aveva scelto quel nome dopo aver guardato una miniserie TV con la storia della fedelissima Penelope, che l'ha commossa molto forse perché sua stessa madre aveva aspettato il ritorno del marito a chi toccò, durante Seconda Guerra, partire a servizio della Marina Imperiale. Quella nonnina aveva aspettato il nonno del comandante più di 40 anni fino alla sua propria morte nel 1989.
"E proprio perché la mamma mi ha scelto questo nome occidentale, finisco io per avere questi sogni agitati, e proprio qua, in questo oceano così bello e così giapponese, il Pacifico."
Quei pensieri intorno al sogno e suo nome hanno dovuto essere tutt'a un tratto dimenticati, poiché decine di balene furono rilevate dai radar, tutte dirette verso una minuscola isola rocciosa, il cui nome non era nemmeno sulle quelle mappe così accurate.
Marinai cacciatori si entusiasmano molto quando trovano tante prede facili, e forse questo spiegasse perché, dopo aver fatto il giro delle rocce, quegli innumerevoli cetacei sono scomparsi dalla vista di tutti, ed anche da tutti i radar e dai molti droni che volano su di loro. Avevano tutti loro avuto un miraggio collettivo?
Ancora scettico su quell'improvvisa scomparsa, quell'Ulisse giapponese ordinò massima approssimazione a quelle scogliere rocciose, da dove una canzone sembrava venire, come deliziosa melodia.
Subito lui gridò: "Accidenti! Quei pazzi di Greenpeace sono venuti dietro la nostra nave un'altra volta? No, mi correggo ora, non del tutto! Me ne sono adesso accorto che solo voci femminili possono essere sentite. E guarda che ragazze bellissime, amico ufficiale di coperta!"
"Caro comandante, devo eppure dire che ad uno sguardo più attento, Lei potrà vedere che loro non sono esattamente donne!"
Infatti, quelle non erano donne ma piuttosto sirene, così che quest'Ulisse cacciatore ha potuto finalmente capire suo sogno, da che tutto lì stava ripetendo cos'era accaduto dopo l'avvertimento di Circe all'eroe di Itaca. Con questo in mente, lui stesso ordinò a tutto l'equipaggio di coprire le loro orecchie, cosa fecero prontamente, nello stesso tempo nel quale lui si legò saldamente a una barra di radar.
Attraverso la melodia delle Sirene, si invitava tutti loro a cambiare la freccia del tempo mediante un meraviglioso tuffo verso il passato, senza ritorno possibile. In questo modo, le balene-sirene furono in grado di offrire loro, nel luogo dei prodotti così redditizie della caccia facile di animali così pacifici, il dono che tanti dicono il più grande desiderio di qualsiasi mortale, cioè, la vita senza fine, perché solo il futuro può portarci la morte.
Sempre evitando di essere visto come egoista, il comandante scelse di condividere subito tutta quella sua euforia estatica con suo equipaggio, messaggiandoli da WhatsApp di liberare le orecchie, in modo che ognuno lì potesse essere del tutto incantato dalla paradisiaca canzone.
Sotto la sfilza di dozzine di gigantesche balene, diventate bellissime sirene, la nave di questo Ulisse naviga sull'Oceano Pacifico verso ai millenni del passato, per tutta la trascorsa eternità.

May 23, 2026

Papai Noel, Anjo da Guarda ou Lei Estatística?


"Depus a máscara, e olhei-me ao espelho.
 Era a criança de há quantos anos." 
                          Álvaro de Campos 

Filha Bel, você soube que em maio do ano passado perdi meu livro 'Obra Poética' de Fernando Pessoa? Fiquei muito triste, pois constantemente o lia e relia... Procurei, revirei, voltei aos locais que costumo frequentar: livrarias, lanchonetes, restaurantes, clube e etc. NADA! Pensei, e ainda penso que, talvez em algum desses momentos de arrumação às pressas, tenha ido parar no lixo, misturado por acaso a jornais velhos. Como certamente se lembra, trata-se de uma edição luxuosa da 'Nova Aguilar', que já nada publica há muitos anos. Procurei nos sebos da Teodoro Sampaio, em vão. Sugeriram-me consultar os vendedores da internet, onde encontrei, sim, alguns exemplares dele, mas que hesitei encomendar por desconhecer seu estado de conservação. Decidi que só faria tal compra quando fosse pessoalmente a uma dessas lojas.
Ocupado demais, fui adiando essa busca.
Até que, em 26 de dezembro do ano passado, lá pelo meio-dia, desci do apartamento pra tomar um café expresso nas redondezas.
Ao chegar à calçada, e virando à direita, rumo à Teodoro, noto que atrás de mim uma mulher empurrava um carrinho de supermercado, abarrotado de livros. Como percebe, isso já era um evento bem atípico pra aquela hora e local. Ela empurrava o carrinho, acompanhada do filho de uns 7 anos. Logo passaram à minha frente, pois eu ia devagar por estar muito atento à cena . Havia ali obras de grande valor: poesia completa de Drumond, Guimarães Rosa, Machado, Camões, etc. Comentei: "Parabéns, que bom gosto literário noto nessa sua 'compra de supermercado'!"
Pude entrever naquele amontoado de livros uma 'Prosa Completa' de Fernando Pessoa, da mesma Nova Aguillar, que adquiri junto do volume perdido, e que nunca sai de minha estante, pouco lida, talvez porque o 'Livro do Desassossego' me tenha desassossegado demais antes que chegasse a ler sua terceira página. Bernardo Soares há de me desculpar! Logo abaixo desse primeiro Pessoa, outro identicamente editado pela Nova Aguillar.
Pensei ao ver que havia dois volumes: "Pra mim a obra prosaica do Fernando jamais vai ser tão apreciada quanto sua poesia. Só isso pode explicar por que dois exemplares idênticos de sua prosa, publicada como volume gêmeo da Obra Poética, mas de conteúdo tão maçante, estão a caminho de algum sebo. Certamente serão vendidos no esquema ‘gato por lebre’".
Quis,então saber do ano de sua publicação, pra ter uma idéia de por quanto tempo a Nova Aguillar os produzira. Pedi licença e retirei-os do carrinho.
Tive a deliciosa surpresa de perceber que o outro volume não era senão a minha tão procurada "Obra Poética" de Fernando Pessoa, a mesma que perdera havia 7 meses. Disse de imediato àquela bela mulher:
"Que maravilha, você tem o livro de poesias procurado por mim há tanto tempo!"
E fui direto ao assunto:
"Pensando em vendê-lo pra alguém?"
Já diante de um porta-malas aberto, onde colocaria todas aquelas preciosos livros, respondeu:

--"Não estou vendendo, e sentindo o quanto gosta dele, dou de presente pra você. Fique com ele!"

Incrédulo, disse:

"Mesmo sem ter religião, vejo em você uma anja, vinda pra me presentear com algo tão precioso e raro".

Ela: "Ora, o anjo é você!"

Tomando meu café, lendo já poemas no meu novo Pessoa, pensei na probabilidade de isso ter acontecido dessa forma, por acaso e num dia 26/12. Pergunta inevitável: Foi Papai Noel, ou foi um anjo-da-guarda, cuja existência ouvi um rabino assegurar poucos dias antes, no Chanukah, com toda seriedade? A explicação estatística pela 'Lei dos Grandes Números' bastaria pra liquidar com a interpretação místico-mágica desses eventos?
Ou devemos pensar que a estatística não passa de um saber matemático limitado, útil apenas como uma quantificação de ignorância diante de eventos inexplicáveis.  
Qualquer que seja nossa resposta a isso, fatos como esse que vivenciei põem cheque a visão empírico-racionalista que domina a cultura contemporânea, já há séculos. A probabilidade de sua ocorrência com todos os seus detalhes, calculada ex-ante, ou seja, antes de ter acontecido, é um limite tendendo infinitamente a ZERO! E dentre tais detalhes, não deixo de frisar sua ocorrência em época de dar e receber presentes.
Lembremos que eventos de probabilidade zero, são ditos impossíveis.


                                                    ΩΩΩ


O autor deste relato publicou o romance 'A Última Coruja', disponível na amazon.com.br, e outro sítios.