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August 16, 2026

Prefácio à 'Genealogia do Real' (Nietzsche e Freud)

“Sou homem depois desse falimento?” 
    João Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio

O século 19 viu nascer grandes pensadores, alguns dos quais adentraram o século seguinte: um século pródigo: Freud, Nietzsche, Marx, Darwin, Kierkegaard, Bergson, Husserl, Heidegger, Durkheim, Unamuno e Russel, entre tantos outros.
Nesse momento, nesse texto, nos interessam Freud e Nietzsche.
Freud produz uma verdadeira dialética da interioridade. Nela, o sujeito não é jamais aquilo que se crê, está descentrado. Nele, o desejo fala. E esse humano que o desejo habita ganha nova dimensão: o não cônscio. Nesse contato, ganha realidades distintas.
Nietzsche, em suas metáforas irônicas e em seus aforismas, traz o humano, inclusive em seus atributos como memória e linguagem, oriundos do confronto dado pela Vontade de Potência.
Não é fácil segui-los, para quem não quer se fixar no imediatismo dos clichês do senso comum, mas, ao inverso, procura entendê-los em suas dimensões mais profundas.
Caminhos tortuosos, às vezes sombrios e escorregadios... Cheios de musgos e pedregulhos.
Perigoso caminhar.
Aí entra Marcos Wagner.
Com sua erudição, seu conhecimento, perspicácia e perseverança, ele vai nos conduzir com sua lanterna, por esses difíceis percursos. É o seu caminho que ele nos apresentará. Vamos segui-lo!
Iniciamos nossa caminhada com um texto freudiano de 1911: Formulações Acerca dos Princípios do Acontecer Psíquico, no qual Freud busca delinear o desenvolvimento a partir do Princípio de Prazer e do Princípio de Realidade. Nessa descrição de uma Hermenêutica moderna, Marcos Wagner, sempre seguindo Freud e Nietzsche, busca fazer contrapontos entre Prazer, Realidade, Mundo Externo, Interpretação, Consciência, Ressentimento, entre outros conceitos dos mestres.
A Genealogia do Real, em Freud e Nietzsche, trazidos por Marcos Wagner.
Nesse momento, em nosso trajeto, surge o que considero o ponto central do texto. Paralelos entre Freud e Nietzsche. Aqui, não será buscada uma síntese entre os dois pensadores, mas sim, as dessemelhanças. Novos conceitos serão avaliados nessas dimensões: Devir Ativo, Devir Reativo, Fantasia, Caos, Negação e Niilismo...
O banquete é amplo e variado, mas devemos saboreá-lo com cuidado e atenção redobrada.
Estamos chegando quase ao final de nosso trajeto. Despontam aqui duas instâncias fundamentais para entendermos o engendramento do humano: Narciso e Édipo. E a relação entre eles. E, claro, trazem juntos as questões do desejo, das identificações, o estudo das massas, a má-consciência, e tantos outros saberes.
A primeira coisa que nos chama a atenção é a pluralidade de leituras. Marcos nos coloca perante essa variedade, que é bem distante das conceituações fáceis e apressadas vistas por aí... Também se acentuam as correlações entre os dois conceitos, e daí, descrições sobre a formação do humano.
Com isso, terminamos o trajeto.
Terminamos?
Ao guerreiro leitor, agora enriquecido por tal percurso, oferece-se um presente, um descanso merecido:
A Arte!
“Perguntem aos poetas”, diz Freud.
Ou: “O artista sabe bem dar forma a conteúdos que vêm de desejos profundos, transformando a fantasia pessoal em prazer coletivo.”
Ou ainda: “É um trunfo da arte poder apresentar tanto o delírio quanto a verdade sob a mesma forma de expressão.”
Já Nietzsche nos traz: “Temos a arte para não sucumbir diante da verdade.”
E mais: “A essência de toda arte bela, de toda grande arte é a gratidão.”
E, ainda: “A arte, e nada além da arte. Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande sedutora que atrai para a vida.”
É marcante a importância da dimensão artística para esses dois pensadores.
Assim, Marcos Wagner da Cunha, utilizando os conceitos descritos em seu texto, vai analisar três obras de arte: o conto “O Outro Céu”, de Julio Cortázar; o filme Rashomon, de Akira Kurosawa; e “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa.
Para os amantes de Rosa, um dos mais belos e estranhos contos da antologia brasileira. Agora lido sob o prisma de Freud e Nietzsche.
Não poderia terminar este prefácio sem um depoimento pessoal. Há mais de quarenta anos acompanho, enquanto psiquiatra e psicoterapeuta, pessoas chamadas de psicóticas, e, entre elas, algumas tidas por esquizofrênicas. A proposta pode ser apresentada de maneira simples: buscar as verdades contidas no delírio e, via parodoxo, confrontá-las. Tenta-se, assim, “ancorar” uma leitura de realidade na outra, respeitando-as. Depois, analisa-se em que momento da biografia da pessoa surgiu a duplicidade e o rompimento.
Embora o texto de Marcos Wagner não foque a loucura explicitamente, ajuda-nos, e muito, a buscar nossas próprias respostas sobre as fronteiras entre realidades e loucuras.



Prefácio escrito por Geraldo Massarodoutor em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo, Supervisor de Residentes do Serviço de Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, ex-presidente da Federação Brasileira de Psicodrama, autor de vários livros, dentre eles o romance ‘Nas Terras de Creonte’.


August 15, 2026

Viver é Vagar ao #Acaso. Acaso? (Relato Factual Verídico)



Em 26/9/2017*, impedi o suicídio de um homem de cerca de 45 anos numa estação de metrô de São Paulo. 

A sequência de eventos relevantes dessa história começa no fim-de-semana, dias 23 e 24 daquele setembro de 2017, em que viajei para Itanhaém, sozinho em meu carro. No retorno a São Paulo na madrugada do dia 25 chegando à avenida Paulista, pouco depois de 3 da madrugada,  percebi que um dos pneus havia furado. Em busca de um posto de gasolina, onde pudesse obter ajuda, desci a rua Augusta em direção aos Jardins. O frentista limitou-se a calibrar o pneu furado com 35 libras, pressão que julgou suficiente pra que pudesse chegar em casa, dado que já estava bem perto dela.  Não haveria como sequer pensar em trocá-lo àquela hora, me disse o rapaz.
Muito cansado, só na manhã seguinte, segunda-feira, acionei a seguradora, cujo borracheiro constatou ausência de estepe, roubado durante minha estada no litoral.
Laura Alice, minha filha, então com 6 anos, estava na casa da avó junto de sua mãe, e teve um pico de febre alta. Dado que não pude resolver o problema do pneu naquele mesmo dia, chamei um carro do Uber para ir ao encontro delas, e examinar minha menina.
Cheguei ao apartamento de sua avó, no bairro do Brás, às 22:15. Laura já estava bem, e às 23:30 decidi voltar pra casa de metrô, apesar  de certa preocupação com a segurança desta caótica cidade. Nos tempos de faculdade, eu fazia longas caminhadas pelas madrugadas, com prazer e tranquilidade.
Os arredores da estação Brás, como de tantas outras, mostram sinais de decadência urbana, mas após a catraca já não tive por que me preocupar com assédio de pedintes, ou com outros eventos geradores de constrangimento ou  insegurança. 
A caminho da plataforma de espera do trem que segue no rumo oeste, vindo de Itaquera, iam essas 7 pessoas:
a)Um homem forte, de pouco mais de 40 anos, que se dirigiu sozinho para a  extremidade em que pára o primeiro vagão, onde fica a cabine do condutor;

b)Mais 5 pessoas esparsas, distribuídas  ao longo da metade da plataforma pra trás, isto é, na extremidade oposta de embarque;

c) Eu, o sétimo.

Como nunca fizera esse trajeto de metrô, pensei comigo: "se esse cara, que pouco falta pra ser um Popeye de músculos, prefere embarcar junto da cabine, no primeiro vagão,  provavelmente a estação República (onde eu pretendia descer) tem uma escada de acesso à saída pra rua nessa ponta do comboio." 
Dado que teria que aguardar alguns minutos, fui dar uma olhada no mapa de conexões entre os meios de transporte da monstruosa região metropolitana de Sampa com as várias linhas subterrâneas, de modo que, mesmo estando a não mais que três metros daquele fortão, ele não pôde me perceber ali, e na certa imaginava estar a mais de 30 metros de qualquer outra pessoa. 
Até que ouço a composição se aproximando a certa distância. Ao desviar o olho dos mapas, pra ir pra beira da plataforma de acesso, ouvi gritos vindos do outro lado dos trilhos, dali onde se embarca rumo à direção leste: "VAI PRA TRÁS, CARA! SAIA DAÍ! ALGUÉM TIRE ESSE HOMEM DAÍ! CHAMEM O SEGURANÇA!"
Gritavam pra tentar convencer o fortão, mas também se dirigiam a mim, o único em condições de fisicamente fazer algo pra que ele não fosse destroçado pelo violentíssimo choque já iminente.
Pensei rápido: "Se tentar segurá-lo posso ser arremessado pra vala junto, bastando que ele me puxe." Decidi agarrar com o braço esquerdo uma barra de metal, dessas cuja função é pôr ordem no embarque nas horas críticas da  superlotação de passageiros. Com a mão direita, puxei aquele homem pelo antebraço com toda firmeza. 
Sua estratégia de suicídio não era jogar-se inteiro na vala, certamente porque o condutor, ao vê-lo, poderia frear a tempo. Com o resto do corpo pra trás, ele só deixaria a cabeça pra dentro da vala do trem. Seria decapitado, pois não seria visto a tempo. Desconheço o sistema de câmeras de vigilância da plataforma, e não pude saber se seu triste plano de morte levou em conta tais imagens.
Agarrando-o pelo braço, puxei-o aos gritos: "está passando mal? Saia daí! Não fique aí caído, não!" De início, porém, resistiu, e espichou mais a cabeça direção fatal. Gritei: "venha alguém me ajudar, ele não está conseguindo levantar". Esta última frase, com o verbo "conseguir" foram  calculadas: em nenhum momento duvidei de que tentava suicidar-se, não se tratando em absoluto de um mal-estar físico. 
Tempo, pra que alguém viesse me ajudar a tirá-lo dali, não havia nenhum! A vida dele dependia exclusivamente de minha presença ali.
Cedendo a meu esforço e às poucas palavras ditas, aquele desconhecido  ergueu-se, ficou em pé. Instantes depois o trem parou no local esperado, as portas se abriram. A expressão de seu rosto era tensa e sinistra como jamais vi, reveladora de dor extrema, de um desespero muito amargo, mas gélido. Nem um traço de sua expressão se dirigia a ser visto, como nas tentativas dramatizadas de certos falsos suicidas. Estava lívido, e seu olhar era aterrrador.
Em tom ríspido de comando  eu lhe disse:
"Vamos, tome esse vagão já, junto comigo!"
Obedeceu.
Não trocamos mais nenhuma palavra. Suicidas detestam que se fique, pelo menos de imediato, a lhes aconselhar com o velho "deixa-disso", ou " o que é que te fez querer se matar", "tristeza passa, e a vida é bela". O único efeito possível desses conselhos ali seria aumentar sua convicção por morrer logo. 
Tudo o que pude fazer foi fingir ter pensado que ele havia tido uma queda por pressão baixa, ou algo assim. Estou quase cert9o de que essa foi a imagem que levou do socorro que pude prestar-lhe.
Desembarquei ao chegar na República, ele prosseguiu no trem

Eventos improváveis em cascata

Já em casa, me pus a pensar na seqüência de fatos, todos muito improváveis, que precederam esse tenebroso salvamento. Se qualquer dos fatos aleatórios  enumerados a seguir não tivesse ocorrido, aquele Popeye suicida teria sido decapítado: 

1) O furto ocorrido em Itanhaém, por certo na madrugada de domingo.  O ladrão foi muito esperto e rápido, e dado que o estepe fica oculto sob o porta-malas no meu carro, nada notei de imediato; 

2) O pneu ter furado na viagem de retorno, mas só já muito perto de casa. Se furasse mais longe, eu teria sido obrigado a trocá-lo logo, e toda esta história teria tomado outro rumo;

3) Minha filha estar tendo picos febris na casa de sua avó já há 3 noites, e sua mãe ter optado por só me falar disso, por telefone, na segunda quando eu já estava em casa;

4) Eu, exausto, ter decidido só agendar o guincho da seguradora para a manhã de terça;

5) Apesar do direito a carro reserva constar de minha apólice, eu não o ter solicitado, não sei porquê;

6) Mesmo um tanto receoso, ter decidido tomar o metrô pra voltar pra casa. Quase chamei outro Uber, mas algo me fez mudar de ideia.
 
7) Ao chegar à plataforma, ter-me dirigido pra mesma direção do Popeye desconhecido, mas dada minha obsessão por mapas, ficar fora do seu campo de visão. Quantos passageiros contemplam mapas dos transportes paulistanos à meia-noite?

O acaso, seu papel na existência humana, dá muito no que pensar. 
Por outro lado, seu rosto, dominado pela amargura daquela firme e tenebrosa decisão, me parecia dizer que vivia as consequências de um violento choque de visões de mundo: de um lado a formação tradicional da gente simples, resultado de tantos séculos, milênios de sedimentação de costumes familiares e sociais; de outro lado a enxurrada de valores tão opostos a esses alicerces básicos de toda essa tradição enraízada na história de nossas sociedades ocidentais, e em boa parte das orientais também.
As assim chamadas "vanguardas intelectuais" globalizadas destes nossos tempos, sempre radicalmente questionadoras, assentadas em teorias psicológicas, sociológicas, recentes.  
Senhoras e senhores "revolucionários vanguardistas", cuidado pra não retirar de repente o pouco sentido que tem a vida dessa gente humilde, que sequer compreende esse mundo intelectualizado, onde germinam as constantes, infindáveis revisões teóricas sobre como se deve viver, educar, amar e ser livre. Claro que há muito que melhorar na tradições atávicas, mas não convém ter tanta pressa. Usando uma imagem surrada mas bem própria aqui, "não joguem fora o bebê com a água do banho!"
A verdade definitiva, enfim, não está com vocês, e não está com ninguém, pois não faz sentido falar em pontos finais seja em cência seja em filosofia! Parem de lançar com arrogância suas "verdades modernas", como jatos de vômitos, pra cima das multidões que sequer compreendem a linguagem de vocês. Por mais errônea que possa ser a visão de mundo das gentes, ela sae ergue sobre um conjunto de avaliações profundamente enraizadas em suas histórias concretas de vida. Sua perda súbita pode talvez retirar todo sentido possível da existência de bilhões de pessoas.

                   XXX


*PS: Setembro de 2017 foi mês dedicado internacionalmente à conscientização e prevenção do suicídio.

August 11, 2026

ALEPH: Especulação Arqueo-Antropológica.


No ensaio "Totem e Tabude 1913, Sigmund Freud apresentou uma hipótese antropológica ousadamente especulativa, construída através do entrelaçamento dos revolucionários conceitos de sua teoria psicanalítica, então recém-criada. Uma horda primitiva, semelhante àquelas observadas entre primatas superiores, como gorilas e chimpanzés, é dominada por um macho forte e astuto, que exclui com violência os rivais mais jovens da posse das fêmeas. Até o dia em que esses excluídos se unem, derrotam, matam e devoram o líder (e pai da maioria), dando origem a uma nova ordem familiar e social. A partir de então não haveria mais tal tipo tão primitivo de "patriarca". Acabava assim a necessidade desse tipo de assassinato hediondo com canibalismo para expulsar os velhos dominantes do topo. Freud afirma que esse parricídio primordial permanece em nosso inconsciente coletivo e dá estrutura ao complexo de Édipo típico das famílias humanas pra sempre. É desnecessário sublinhar, portanto, a sua importância nuclear na constituição de nossas mentes sob uma perspectiva freudiana.

Apresentamos aqui, através de um conto em estilo mítico, uma forma alternativa de também especular, à nossa maneira, sobre as raízes mais profundas do nosso funcionamento mental

ALEF

Montanha de pedras

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 Nasceu perto do imenso rio que atravessa um deserto sem fim, à sombra de um enorme baobá, não muito longe do mar. As dores do parto foram fortes, mas a alegria e o brilho logo vieram aos olhos da mulher que lhe trouxe à vida. Quando criança, Alef brincava nas várzeas ao longo daquele mesmo rio, corria e pulava pela floresta, subia em árvores, e comia tantos tipos de fruta. Tornou-se um jovem forte e musculoso, e logo as mulheres com quem cruzava rapidamente se entregavam àquele belo rapaz. Aos seus desejos, Alef facilmente correspondia, ingênuo, suave, cheio de tesão e de ternura.

Formavam uma horda errante: ele, então único macho, cercado por inúmeras fêmeas a deliciar-se em orgias intermináveis.
Deslocavam-se, dia após dia, acompanhando o fluxo da caudalosa corrente. Até que numa manhã fria se surpreenderam ao avistar o mar de altas e salgadas 
ondas. A partir dali, sempre a se amar e a procriar, a orla marítima é que lhes dava a direção. Alef não quis seguir pra onde o sol morria todo fim de tarde, preferiu o rumo daquela terra que paria o novo sol todas as manhãs.  

Em certo amanhecer muito quente de verão, ao dar-se conta subitamente de que mulheres mais velhas já não despertavam seu desejo, Alef as abandonou. Estas, porém, ainda que separadas do grupo que permanecia junto dele, passaram a seguir suas pegadas na areia. Assim, poderiam ainda observá-lo, mesmo que só à distância, pra alimentar seus sonhos e devaneios com os olhar de Alef.
Sedento de vida, ansiando por todos os tipos de êxtase e maravilhas, ele continuava a buscar por novos corpos quentes, fortes, lindos e ávidos. 

Tanto pelos que o tinham a seu lado, que ainda podiam oferecer-se a sua luxúria infinita, quanto pelo grupo rejeitado, aquela horda de errantes crescia.

Alef trocava, então, cada vez mais, amantes envelhecidos por jovens adolescentes nascidos de seu grupo. Pouco lhe importava seu gênero, e tanto umas quanto outros deixavam-se por ele seduzir, ao revelar-se parceiros doces, gentis, constantes.
Alef não tinha nome algum, assim como ninguém nem nada entre eles. A única vocalização de todos de sua horda eram os gemidos e gritos das orgias.

Então, veio um certo amanhecer em que avistaram um  novo mar, ou lago, extremamente salgado, denso, a ponto de só pedras e rochedos irem ao fundo em suas águas. Parecia não abrigar qualquer peixe. Assim, durante o percurso ao longo daquela nova margem, só pequenos animais do deserto serviam-lhes de alimento, tendo que ser caçados com dificuldade por entre os rochedos. Portanto, foi com muita alegria que, num amanhecer dourado chegaram à foz de um rio, cuja água doce desembocava naquele mar tão salgado. A partir desse dia, tendo fácil acesso a comida, aquela horda nômade pôde parar de perambular tanto, e fixou-se ali por muitas estações. Foi nesse bom tempo e lugar que Alef atingiu a plenitude máxima de sua força e beleza de macho humano. Apaixonava-se por moças assim que via o desejo quente e maduro em seus olhos, e abraçava cheio de ternura os rapazes em que percebia ombros largos o bastante, peitos peludos, coxas musculosas. Esses jovens, gerados nas fêmeas da horda, entregavam-se a ele em êxtase, e o amavam com a fúria dos leões no cio.

Muitos outonos antes, uma das fêmeas mais belas dera à luz um menino, que logo se pareceria muito e cada vez mais com Alef: no rosto, no cabelo, nos olhos, na sede de poder. Assim que o primeiro desejo forte de rapaz lhe brotou, ele e uma linda mulher, que poderia ser a que lhe deu à luz, possuíram-se explosivamente.

Presenciando essa repentina fúria amorosa perto de onde dormia, Alef, foi tomado por selvagem tesão tanto por aquele jovem musculoso, quanto pela sua penetração em uma de suas mais lindas amantes. A seguir, em meio aos rochedos e à margem direita do rio, já perto da foz, aconteceu o encontro numinoso: o rapaz, a primeira mulher que amou, e Aleph. Os três nus, a tocar-se e beijar-se loucamente, as ereções intensíssimas imitavam a dureza das pedras ao redor. Abraçaram-se, entrelaçaram seus corpos e uivaram como lobos por toda a noite mais quente daquele verão.

Por serem dois homens idênticos, eles poderiam ter prosseguido sempre a viver e a amar lado a lado, compartilhando cada uma daquelas lindas e daqueles lindos amantes. Quem seria capaz de diferenciar um do outro? E pra quê? Tal teria sido seu destino de homens fortes, selvagens e ávidos por orgias intermináveis. Seriam capazes de levar uma só vida de prazeres, a seguir com sua horda para sempre rumo àquela misteriosa terra de onde nasce o sol.
Entretanto, algo de novo e
 insuspeitado, veio a interromper o que parecia ser o fluxo espontâneo natural de suas vidas. Tal fato, diferente de tudo que tinham vivido, deu-se numa daquelas noites de orgia, logo ao final de um intenso e ruidoso ménage-à-trois. Quem sabe por ter gerado, o rapaz em seu próprio corpo, a mulher se deu conta de que o desejava com mais tesão do que o que sentia por Alef.  Por isso, e pela primeira vez, pôde distingui-los. A seguir, lançando poderoso feitiço contra o mais maduro, deu-lhe um nome: 'Pai'.

Tendo um nome, Pai, não seria mais confundido com o jovem. O entrelaçamento de suas identidades, que lhes proporcionara tantos momentos de êxtase, não existia mais. Tentaram, então, a apelar pra suas doces lembranças, repetir o trio extasiante e uníssono, empregando agora as mesmas carícias, os mesmos beijos, abraços, e toques de mão, que haviam levado aos momentos de clímax. Houve alegria, júbilo, mas foi por tudo impossível alcançar aquele mesmo ritmo simultâneo que os levara a chorar e a gritar juntos. Perplexos, puderam então observar outro feitiço dela:  chamou o gozo tido com Aleph de 'o Passado'. O outro orgasmo, mais forte, tido com o jovem, chamou de 'o Futuro'. Àquela sensação de tédio e frustração perturbadores em que os três se encontravam pouco antes do amanhecer, chamou de 'o Presente'.

A partir de então, como seres individualizados, com nomes e noções sobre um fluxo unidirecional de tempo, Filho e Pai, odiaram-se.  Aleph expulsou violentamente Filho, fazendo com que se juntasse aos rejeitados. A mulher matriz das palavras o acompanhou. 'Filho e Mãe', dois nomes que ela acabara de inventar, frustrados e infelizes, ainda puderam conceber outra dimensão do tempo: a de uma vida que teria sido possível se o trio de amantes não tivesse sido desfeito, se o seu amor incendiário ainda pudesse existir como antes. Filho e Mãe nomearam esta dimensão temporal imaginada, que poderia ter sido, ausente e inatingível, de 'Eternidade'. O orgasmo explosivo e simultâneo daquele trio, impossível de expressar em palavras, chamaram de 'Deus'.
Entre os rejeitados, que só sobreviviam por sonhar e devanear com os olhos de Alef, Filho, fisicamente tão semelhante a ele, logo foi admirado e desejado por todos. Mãe decidiu ensinar a todo o seu novo grupo a feitiçaria dos nomes e dos tempos. Visto que o gozo com o Pai era o Passado, sua condição de rejeitados, o Presente, o orgasmo provável com Filho, o Futuro, e a felicidade que poderia ter sido
mas nunca se deua Eternidade; os rejeitados sentiram-se capazes de se afastar do brilho dos olhos de Pai. Assim decidiram, numa tarde de outono, quando Filho lhes falou de Deus, uma alegria, um clímax orgástico indescritível, impossível até de colocar em palavras suas nuances tão preciosas, com seu ritmo triplo tão sublime e harmonioso. Sim, inútil tentar dizer algo sobre a intensidade de Deus ou mesmo sobre a veracidade de sua existência. No entanto, ao tentar transmiti-lo para sua nova horda, Filho criou um conjunto mágico e requintado de sons e cadências, para espanto, maravilha e fruição de todos. Assim, ele inventou a Música.
O grupo dos rejeitados, em que apareciam cada vez mais nomes
designando tanto coisas quanto idéias ou sensaçõesseguiram em direção ao sol poente, trazendo de Alef lembranças daqueles dias de luxúria, tanto quanto a dor de nunca mais poder ver seus olhos. Nunca, nem mesmo através das infindáveis gerações subsequentes, foram esquecidos aqueles encontros orgiásticos a três, nem as palavras que Mãe ali criara: Infinito, Beleza, Passado, Eternidade, Deus.

August 10, 2026

Messalina and The Truth

For millennia, philosophers and scientists have sought truths of universal value. Yet, it is quite curious that there are countless definitions of what this highly coveted "lady" might actually be. Do so many people seek her without truly knowing what truth is? Despite this, everyone seems to agree that truths do exist. And all indications suggest that—at least in this plural sense—no one would dare deny it. Is the idea of ​​truth merely an instrumental concept tool for dealing with the world and constructing theories that are likewise instrumental?

The issue becomes truly complex when two or more alleged truths clash. What grounds the attribution of truth to a statement regarding any fact, hypothesis, or theory? And how, from a moral and ethical standpoint, do we distinguish truth from a lie? Kant arguably made his most egregious error in this regard by asserting that a human being should never choose to lie—that doing so is always reprehensible. Yet, it is easy to imagine a situation that exposes the nonsense of this view: a revolutionary is hiding in your home during a bloody dictatorship. The political police arrives and ask, "Is [so-and-so] hiding in this house?" Telling the truth would mean handing the fugitive over to his likely killers and colluding with the dictators' illegitimate power—acts that are ethically abhorrent.

This example also makes it clear that power, legitimacy, ethics, and truth are inextricably intertwined.

Nietzsche dismantled the notion that truth can be pure and independent of any human perspective. In other words, he ruled out the existence of any absolute truth, arguing that all truths are subordinate to interests that are never explicit—often concealed or even unconscious to those who utter them. The point, then, is not to deny the existence of truths, but to highlight that they stem from perspectives and entail specific relations of social and political power. In short, truths are always relative. In everyday life, we frequently encounter situations—whether familial, social, or political —involving conflicts between competing "truths." Proponents of a given opinion argue their case by invoking logic, coherence, ethical or religious principles, or even scientific theories to substantiate their choice of what they proclaim to be *the* truth.

It is evident just how significant a part these debates play in our lives. It is also noteworthy how heavily passions interfere in them, usually prevailing over the supposedly rational elements of the argument.

The notion of the "arbiter of truth" is surely well known—that peculiar figure who never listens to what others say, especially when their own established "truth" (or that of their group) is called into question. No matter the evidence to the contrary, their opinion remains fixed—impregnable and immune to any possible refutation. Typically, they turn up their noses and turn their backs on dissenters. They recall the proverbial "blind man who refuses to see."

It is disheartening to observe how common this attitude is among politicians of all stripes.

Yet, it is not only in ideological, political, or religious matters that individuals who deem themselves the sole owners of truth emerge; such figures appear frequently among great scientists as well. Freud policed ​​disciples who dared question his dogmas; Einstein insisted that God should not play dice... All signs point to this being an inherent weakness of *Homo sapiens*. Is this a cause for sadness? Or should we embrace *amor fati* and build something greater, acknowledging this limitation of ours?

No, there is no need to lament human smallness! *Amor fati*. It is simply what we have: we are human beings—all too human.

I do not know if truth possesses any sort of essence that remains invariant over time. A few days ago, an analogy occurred to me involving a certain human archetype—one embodied countless times by historical figures, yet one that can be found everywhere. The figure of Messalina is frequently discussed in the history of Rome. She married Emperor Claudius at the age of fourteen; he was her uncle and was already forty-eight at the time of their union. There is no neutral source revealing the impact this age gap had on the nature of their relationship. What is known is that the young woman never limited her sexual encounters to her husband alone. Nor did he reproach her for this; one might even imagine he enjoyed the overflow of erotic passion from his beautiful, young, and fiery wife—passion fueled by the freedom to take whomever she pleased, whenever she pleased.

Messalina hosted public orgies in Rome's squares; in one instance, she challenged another beautiful young woman to a contest to see who could have full sexual intercourse (culminating in orgasm) with the greatest number of men in a single afternoon. The empress won the contest with twenty-five solid fucks!

Such is the nature of truth: like Messalina—a woman of extreme wantonness—it can never be owned,

August 8, 2026

Narciso e o "Narcisismo" Contemporâneo


Esta 'Genealogia do Real' dedica-se a aprofundar nossa compreensão do papel da libido narcísica na formação da da personalidade humana, como postulada por Freud.
É comum que estudiosos de psicologia e psicopatologia só tratem superficialmente de Narciso [Eu primordial da fase narcísica de desenvolvimento da libido], e erroneamente lhe atribuem tão-só o traço de negação do outro, dos outros.
Esquecem-se que, antes de negar o que lhe é exterior, Narciso necessariamente afirma a si mesmo!
Mostramos que só dessa afirmação radical de si mesmo por esse Eu primordial pode emergir a dialética que, em contato com o outro, engendra a complexo de Édipo.
Uma abordagem parca do papel desse ‘Narciso’ primordial certamente empobrece a compreensão e a análise do complexo de ‘Édipo’ e de todo o desenvolvimento da personalidade.
Só um leitor muito desatento poderia imaginar que aqui se trata de amenizar a imagem ruim disseminada, e amplamente justificada dos "narcisistas", do mundo contemporâneo. Nada mais descabido! O assim chamado "narcisismo" contemporâneo pouco, quase nada, conserva da afirmação radical da libido narcísica infantil.
Certamente é fenômeno engendrado pelo consumismo insano que aprisiona a sociedade global, e que tanto tem destruído da Natureza à nossa volta! De tanto ser estimuladas a consumir compulsoriamente, as pessoas se voltam a si mesmas, a uma imagem de si, reificada, transformada em coisa, mercadoria, que se dedicam a tentar vender e usufruir auto-eroticamente!
Tarefa premente se impõe aos que se dedicam ao estudo do desenvolvimento da libido e da personalidade: como se dá essa apropriação da libido narcísica pela estrutura de produção capitalista.