
Numa certa
etapa da história humana, acredita-se numa recompensa no além-mundo para os que
tiverem vida regrada, ‘bem’ comportada. As mazelas da existência cessarão na
morte, pois a seguir virá a paz eterna, destinada só para os "bons e
pios", que se resignarem diante das dores deste mundo, tão efêmero. Crê-se
em coisas como o Céu, o Inferno, e a
Providência a proteger quem conseguir viver e não pecar. O sentido de se tolerar este
mundo, está, pois, fora dele, a nos esperar depois da morte.
Desde o Renascimento, todavia, não
se leva mais essa idéia de além-mundo a sério. É a isso esse que Nietzsche se
refere quando Zaratustra anuncia que "Deus morreu".
Controlar impulsos pra ser recompensado no Além já não
aplaca as dores de viver, como antes, é preciso fugir das fontes reais do
sofrer inevitável. Impõe-se abafar todo impulso vivo, todo desejo portador da
possibilidade de frustração, confronto, guerra, e destruição.
O convívio social, na metáfora do porco-espinho, de
Schopenhauer, gera sempre, cedo ou tarde, cutucões sangrentos. Os espinhos vêm
dos nossos desejos a confrontar-se com os quereres alheios. Instintos jamais são plenamente
complementares entre indivíduos, exceto por breves períodos de ilusões
compartilhadas.
A paz só se assegura através da negação, da recusa radical de tudo o que pode
gerar risco, disputa ou frustração. Os Dias Perfeitos de Hirayama não podem ter
envolvimento amoroso, apego afetivo, competição, corrida por dinheiro, vínculo familiar,
ambição profissional. Tudo o que pode nos dar prazer é arriscado, gera
conflitos e feridas mais ou menos cruentas, tantas vezes letais seja no curto
ou no longo prazo. A ‘perfeição’ dos dias do protagonista está em contentar-se
com esse seu único objetivo: a paz verdadeira e duradoura, que em nada se
distingue da paz dos cemitérios.
Lembro aqui um aforisma da literatura brasileira, que ajuda a compreender a
escolha de Hirayama:
Riobaldo Tatarana de "Grande Sertão, Veredas", do grande escritor
filosofante, João Guimarães Rosa, diz:
'Viver é muito perigoso!'
Diante dessa verdade, a opção do 'último homem’[letzter Mensch] de 'Assim falou Zaratustra’, que Hirayama encarna à perfeição,
é esquivar-se a todos os perigos. Ele apenas perdura sobre a Terra, numa
solidão atroz, vazia de toda expectativa.
ΩΩΩ
Dias Perfeitos 2023,de
Wim Wenders.
Obra-prima de Cinema e de Filosofia. Imperdível.



