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August 3, 2026

Messalina e A Essência da Verdade

Filósofos e cientistas há milênios buscam verdades de valor universal. Bem curioso, porém, o fato de que são inúmeras as definições do que possa ser essa tão desejada dama. Será que tantos a procuram mesmo sem saber bem o que é uma verdade? A despeito disso, todos parecem concordar que existem as tais verdades. E, tudo indica que, ao menos nesse sentido plural, ninguém se atreveria a negar isso. Seria a idéia de verdade apenas um conceito instrumental, uma ferramenta pra lidarmos com o mundo, construindo teorias também instrumentais?
A questão se complica pra valer é no confronto entre duas ou mais supostas verdades. O que fundamenta uma atribuição de verdade a um enunciado sobre qualquer fato, hipótese ou teoria? E como, do ponto de vista moral e ético, se distingue uma verdade de uma mentira? Kant teria cometido a respeito talvez seu erro mais grosseiro, afirmando que jamais um ser humano deve optar por mentir, isto seria sempre condenável. É fácil, porém, imaginar situação que prova o absurdo disso: numa ditadura sangrenta, um revolucionário se esconde na tua casa. Chega a polícia política e te pergunta: “Fulano está escondido nesta casa?” Dizer a verdade equivale a entregar o fugitivo a seus prováveis assassinos, compactuar o poder ilegítimo dos ditadores, o que é eticamente abominável.
Desse exemplo também fica claro que poder, legitimidade, ética e verdade estão inextricavelmente emaranhados.
Nietzsche pôs abaixo a idéia de que a verdade pode ser pura, e independente de qualquer ponto-de-vista humano. Em outros termos, exclui que exista qualquer verdade absoluta, pois todas as verdades vêm sempre subordinadas a interesses nunca explícitos, tantas vezes escamoteados, ou mesmo inconscientes a quem as profere. Não se trata, pois,  de negar a existência de verdades, mas de apontar serem decorrentes de perspectivas, implicando relações determinadas de poder social e político. Em outros termos, verdades são sempre relativas.
Na vida quotidiana é frequente encontrar situações, familiares, sociais ou políticas de conflito entre supostas verdades, em que os defensores de uma opinião argumentam, invocando lógica, coerência, princípios éticos, religiosos, ou mesmo teorias científicas para fundamentar a opção pelo que proclamam ser "A" verdade.
É notório o quanto esses debates são parte importante de nossas vidas. É também digno de nota o quanto as paixões interferem neles, e via-de-regra, levam a melhor sobre os supostos vetores racionais da argumentação.
Creio ser muito bem conhecida a noção de “dono da verdade”, aquela figura estranha que jamais dá ouvidos ao que lhe digam, sobretudo caso se ponha em xeque aquilo que ele/ela, ou seu grupo etc., já decidiram ser “a verdade”. Por mais que haja evidências a contrariá-los, sua opinião está previamente fechada, inexpugnável, vacinada contra qualquer refutação possível. Tipicamente, torcem o nariz e voltam as costas aos discordantes. Lembram o caso do famoso “cego que não quer ver”.
Triste constatar que essa atitude é bem comum entre políticos de qualquer lado.
Ora, mas nem só em questões ideológicas, políticas, ou religiosas pipocam seres que se julgam únicos proprietários da verdade, também entre grandes cientistas eles saltam tantas vezes: Freud patrulhava os discípulos que pusessem em dúvida seus dogmas; Einstein queria que Deus não jogasse dados... Tudo indica que essa é uma fraqueza inerente ao Homo sapiens. Isso é triste? Ou devemos invocar o amor fati, e construir algo maior, dada essa nossa limitação?
Não, nada de lamentar a pequenez humana! Amor fati. É o que temos: somos seres humanos, demasiado humanos.
Não sei se a verdade pode ter algum tipo de essência, invariável no tempo. Ocorreu-me, há uns dias, uma analogia com um tipo humano, corporificado inúmeras vezes por personagens históricas, mas sempre encontradiça por toda parte.
Muito falada na História de Roma, a figura de Messalina. Casou-se com o imperador Claudio, aos 14 anos. Ele era seu tio, e contava já 48 anos ao casarem. Não se sabe, de fonte neutra, que impacto teve essa diferença de idade no tipo de relação entre eles. O que se sabe é que a jovem nunca se limitou a ter relações sexuais apenas com seu marido. E este não a censurava por isso, sendo até de se imaginar que usufruísse do transbordamento das paixões eróticas da linda, jovem e fogosa esposa, potencializadas pela liberdade de pegar quem quisesse, e a qualquer hora.
Messalina promovia orgias públicas nas praças de Roma, numa as quais desafiou outra bela jovem a competirem por saber qual delas faria sexo pleno (com orgasmos) com maior número de homens numa única tarde. A imperatriz venceu a disputa com vinte e cinco boas fodas!
Assim é a verdade: é como Messalina, uma mulher devassa ao extremo: jamais terá dono, mesmo se um poder maior for declarado seu dono  (Cláudio). Qualquer um pode curtir uma foda magnífica com a verdade, em qualquer lugar, basta que o acaso e as circunstâncias o favoreçam. Será que alguém sabe a priori pra quem irá o desejo de uma mulher?
Se tiver a impressão de que és “dono e senhor do material”, e de que chegou a ti em primeiríssima mão uma linda verdade, quem sabe virgem, semelhante à que se deu a Einstein ao descobrir a relatividade, aproveite bem tua sorte, teu gozo e o gozo dela. Quem sabe sejam múltiplos, e te propiciem mais incontáveis transas.
"Mas na manhã seguinte, não conte até vinte", te afasta dela! Messalina morre se tu a prenderes! Deixe-a "livre para amar, ir aonde quiser, ser o que ela é."

Real-Irreal: Filosofia, Psicopatologia, Arte

July 31, 2026

Uma abordagem Monista ao Problema Corpo-Mente (Repostando texto da primavera de 2016)

Uma perspectiva monista aplicada ao problema mente-corpo deve correlacionar a cada "evento mental" um "evento corpóreo" [estado determinado do cérebro nos níveis micro e macroscópicos]. Este último deve vir descrito em termos anatômicos e fisiológicos, como base subjacente a nossa mente, bem como a todos os seus processos.  "Eventos mentais" definimos aqui como as actividades, os atos e conteúdos cuja matriz é a mente humana.
De nosso pressuposto básico (o monismo) a cada "evento mental", certamente inclusive a função simbólica, decorre necessariamente a existência de um "evento neurobiológico" com o qual mantém correspondência aparentemente unívoca. Pouco importa se a comprovação e a possibilidade de descrever precisamente essa correlação venha a revelar-se uma tarefa ainda mais complexa do que somos agora capazes de imaginar. 
Assim, não há razão para persistirmos a falar de uma divisão corpo-mente subsistente por si mesma, ontologicamente posta, independente  da existência de um sujeito observador. A divisão percebida e concebida necessariamente emerge como condição a priori a qualquer tentativa de capturar fenômenos humanos como objetos de estudo.
É a dupla porta de entrada disponível para qualquer tentativa de conhecer indivíduos de nossa própria espécie que impõe a emergência inevitável de dois campos científicos a respeito de um objeto mono-substancial em essência.
A imposição a priori de tal porta de entrada dupla pode ser percebida claramente, ao levarmos em conta o fato de que todos os dados empíricos sobre os seres humanos são captados, em última análise, de uma dessas duas fontes:
1) seja do corpo como um objeto concreto, seja
2) da mente como um constructo objetivado derivado da comunicação verbal (palavras) ou não verbal (gestos, caretas).

Devemos advertir eventuais leitores para que não se apressem e não concluam erroneamente que aqui defendemos o "organicismo" como a melhor abordagem para as ciências humanas, sejam da mente ou não ! Tampouco que optamos por defender o psicologismo, ou algo como um sociologismo. Estas considerações metodológicas destinam-se antes a chamar a atenção para o fato inegável de que a enorme complexidade do problema mente-corpo vai muito além de qualquer teoria reducionista.
Impõe-se ficar alerta aos perigos inerentes a todos os reducionismos, pois falsamente afirmam a validade de supostos conhecimentos "científicos" sobre nossos cérebros e mentes,  que se mostram logo dados parciais, inadequados ou mesmo nitidamente errôneos. Nossos cérebros, nossas mentes são órgãos sagrados,  matriz profunda de nossa existência e liberdade.

July 29, 2026

                                         NIETZSCHE e FREUD: Paralelos


July 28, 2026

Sereias, Ulisses e a Percepção do Tempo


Perdeu-se na vastidão do  mar
E, após longos anos sem Penélope
Extremamente carente de amor, 
Circe o alertou sobre à Ilha das Sereias, c Cujo canto se apoderava dos desejos dos homens,
Levando-os a êxtase tal que, abandonando tudo o que seu Eu lhes impunha,
Perdia-se até não mais encontrar rumo.
Esgotado, à beira de explodir, não se conteve. 
Decidiu-se a enfrentar o risco.
Astuto, mandou seus remadores bloquearem totalmente os próprios ouvidos,
Só ele mesmo ouviria o maravilhoso canto,
Fortemente atado ao mastro da nave,
Nem seus músculos de guerreiro o soltariam.

Quem já vivenciou um encontro pleno com os desejos, o corpo e a alma de alguém, desses em que o tempo paira suspenso como que a tangenciar a Eternidade, entrevê a delícia e a dor de Ulisses ao ouvir aquele canto tão proibido.
Qual dor?
A dor que vem com o retorno da percepção corriqueira do tempo, que se impõe, e nos fazer voltar pra trás das máscaras.

Álvaro de Campos e a Solidão.


Não sei. Falta-me um sentido, um tacto

Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer facto?

Estou só, só como ninguém ainda esteve,

Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que seu passo seja leve.

Começo a ler, mas cansa-me o que ainda não li.

Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo alguma coisa como qualquer coisa que já vi.

Não ser nada, ser um figura de romance,

Sem vida, sem morte material, uma idéia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.


Esse poema foi meu primeiro contato com o maior de todos os poetas, Fernando Pessoa, na voz da atriz Dina Sfat que, atuando em telenovela na TV Globo [Os Ossos do Barão], contemplava as areias de uma praia deserta. Jamais esqueci essa cena!

Usei-o como epígrafe do romance A Última Coruja.


July 25, 2026

Sobrenatural ou Desconhecido? [Repostando artigo de 2011]



  • Resenha de "PODERES PARANORMAIS", de Diane H Powell (neuropsiquiatra pela John Hopkins School of Medicine, com formação complementar no Queen Square and The Institute of Psychiatry, de Londres,bem como na Harvard Medical School) 


Pontos principais desse instigante trabalho de uma grande neuropsiquiatra:
Dr Diane Powell não pretende provar a realidade dos fenômenos ditos extra-sensoriais, mas sim conjecturar racionalmente(isentando-se de quaisquer juízos prévios que interfiram com seu pensamento) em torno da possibilidade de os eventos paranormais serem explicáveis por funções naturais, ou seja, nada terem de sobrenatural ou de não-humano. Para tanto, cita e descreve grande número de fatos tidos como manifestação de paranormalidade, não diretamente observados por ela, mas registrados por fontes de confiança, como universidades, agências de segurança do governo federal norte-americano, cientistas de reputação acima de suspeita ( Jung, Einstein, e alguns outros). 
Constrói algumas especulações tateando os atuais limites das neurociências, da Mecânica Quântica, da Física Einsteiniana.
Dentro desse contexto emerge ponto nuclear de onde se irradiam suas conjecturas explicativas desses fenômenos enigmáticos: o CARÁTER ILUSÓRIO DE TEMPO E ESPAÇO, tão presente nos estudos de física contemporânea. E, desde Kant com a Crítica da Razão Pura (1782), tão bem postos em termos filosóficos. 
Como se sabe, se questionamos a realidade do tempo, a noção de causalidade também está posta em cheque (mate?), como bem observou Jung. Pois só no tempo podem existir sequências causais.

Dando grande prova de brilhantismo científico, esta eminente cientista não nega que pessoas com transtornos neuropsiquiátricos tenham  mais fenômenos paranormais do que a população "normal". Todavia, discorda frontalmente daqueles que alegam que isso possa por si só negar qualquer validade às eventuais ocorrências paranormais relatadas por tais pessoas. Drª Powell tece a conjectura de que uma eventual lesão neuronal pudesse ser facilitadora de certas faculdades paranormais, potencialmente comuns a todos os seres humanos, mas que teriam sido inibidas por questões adaptativas, ao longo da evolução de nossa espécie.
Ocorreu a mim, este resenhista, uma imagem para tentar compreender a ilusão humana do tempo: o Universo/Multiverso talvez fosse como um livro, em que um romance completo está impresso. Dada nossa condição humana, todavia, somos capazes de ler apenas numa única ordem: da primeira à última página, do começo ao fim! A Dra Diane Powell talvez gostasse dessa imagem, pois me parece dizer  mais ou menos o mesmo com outras palavras neste livro. Assim, os paranormais seriam pessoas, que, por razões desconhecidas, têm acesso eventual a trechos não usualmente percebidos do espaço-tempo.