Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer facto?
Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que seu passo seja leve.
Começo a ler, mas cansa-me o que ainda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo alguma coisa como qualquer coisa que já vi.
Não ser nada, ser um figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma idéia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
Esse poema foi meu primeiro contato com o maior de todos os poetas, Fernando Pessoa, na voz da atriz Dina Sfat que, atuando em telenovela na TV Globo [Os Ossos do Barão], contemplava as areias de uma praia deserta. Jamais esqueci essa cena!
Usei-o como epígrafe do romance A Última Coruja.

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