“Sou homem depois desse falimento?”
João Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio
O século 19 viu nascer grandes pensadores, alguns dos quais adentraram o século seguinte: um século pródigo: Freud, Nietzsche, Marx, Darwin, Kierkegaard, Bergson, Husserl, Heidegger, Durkheim, Unamuno e Russel, entre tantos outros.
Nesse momento, nesse texto, nos interessam Freud e Nietzsche.
Freud produz uma verdadeira dialética da interioridade. Nela, o sujeito não é jamais aquilo que se crê, está descentrado. Nele, o desejo fala. E esse humano que o desejo habita ganha nova dimensão: o não cônscio. Nesse contato, ganha realidades distintas.
Nietzsche, em suas metáforas irônicas e em seus aforismas, traz o humano, inclusive em seus atributos como memória e linguagem, oriundos do confronto dado pela Vontade de Potência.
Não é fácil segui-los, para quem não quer se fixar no imediatismo dos clichês do senso comum, mas, ao inverso, procura entendê-los em suas dimensões mais profundas.
Caminhos tortuosos, às vezes sombrios e escorregadios... Cheios de musgos e pedregulhos.
Perigoso caminhar.
Aí entra Marcos Wagner.
Com sua erudição, seu conhecimento, perspicácia e perseverança, ele vai nos conduzir com sua lanterna, por esses difíceis percursos. É o seu caminho que ele nos apresentará. Vamos segui-lo!
Iniciamos nossa caminhada com um texto freudiano de 1911: Formulações Acerca dos Princípios do Acontecer Psíquico, no qual Freud busca delinear o desenvolvimento a partir do Princípio de Prazer e do Princípio de Realidade. Nessa descrição de uma Hermenêutica moderna, Marcos Wagner, sempre seguindo Freud e Nietzsche, busca fazer contrapontos entre Prazer, Realidade, Mundo Externo, Interpretação, Consciência, Ressentimento, entre outros conceitos dos mestres.
A Genealogia do Real, em Freud e Nietzsche, trazidos por Marcos Wagner.
Nesse momento, em nosso trajeto, surge o que considero o ponto central do texto. Paralelos entre Freud e Nietzsche. Aqui, não será buscada uma síntese entre os dois pensadores, mas sim, as dessemelhanças. Novos conceitos serão avaliados nessas dimensões: Devir Ativo, Devir Reativo, Fantasia, Caos, Negação e Niilismo...
O banquete é amplo e variado, mas devemos saboreá-lo com cuidado e atenção redobrada.
Estamos chegando quase ao final de nosso trajeto. Despontam aqui duas instâncias fundamentais para entendermos o engendramento do humano: Narciso e Édipo. E a relação entre eles. E, claro, trazem juntos as questões do desejo, das identificações, o estudo das massas, a má-consciência, e tantos outros saberes.
A primeira coisa que nos chama a atenção é a pluralidade de leituras. Marcos nos coloca perante essa variedade, que é bem distante das conceituações fáceis e apressadas vistas por aí... Também se acentuam as correlações entre os dois conceitos, e daí, descrições sobre a formação do humano.
Com isso, terminamos o trajeto.
Terminamos?
Ao guerreiro leitor, agora enriquecido por tal percurso, oferece-se um presente, um descanso merecido:
A Arte!
“Perguntem aos poetas”, diz Freud.
Ou: “O artista sabe bem dar forma a conteúdos que vêm de desejos profundos, transformando a fantasia pessoal em prazer coletivo.”
Ou ainda: “É um trunfo da arte poder apresentar tanto o delírio quanto a verdade sob a mesma forma de expressão.”
Já Nietzsche nos traz: “Temos a arte para não sucumbir diante da verdade.”
E mais: “A essência de toda arte bela, de toda grande arte é a gratidão.”
E, ainda: “A arte, e nada além da arte. Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande sedutora que atrai para a vida.”
É marcante a importância da dimensão artística para esses dois pensadores.
Assim, Marcos Wagner da Cunha, utilizando os conceitos descritos em seu texto, vai analisar três obras de arte: o conto “O Outro Céu”, de Julio Cortázar; o filme Rashomon, de Akira Kurosawa; e “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa.
Para os amantes de Rosa, um dos mais belos e estranhos contos da antologia brasileira. Agora lido sob o prisma de Freud e Nietzsche.
Não poderia terminar este prefácio sem um depoimento pessoal. Há mais de quarenta anos acompanho, enquanto psiquiatra e psicoterapeuta, pessoas chamadas de psicóticas, e, entre elas, algumas tidas por esquizofrênicas. A proposta pode ser apresentada de maneira simples: buscar as verdades contidas no delírio e, via parodoxo, confrontá-las. Tenta-se, assim, “ancorar” uma leitura de realidade na outra, respeitando-as. Depois, analisa-se em que momento da biografia da pessoa surgiu a duplicidade e o rompimento.
Embora o texto de Marcos Wagner não foque a loucura explicitamente, ajuda-nos, e muito, a buscar nossas próprias respostas sobre as fronteiras entre realidades e loucuras.
Prefácio escrito por Geraldo Massaro, doutor em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo, Supervisor de Residentes do Serviço de Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, ex-presidente da Federação Brasileira de Psicodrama, autor de vários livros, dentre eles o romance ‘Nas Terras de Creonte’.
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