Filósofos e cientistas há milênios buscam verdades de valor universal. Bem curioso, porém, o fato de que são inúmeras as definições do que possa ser essa tão desejada dama. Será que tantos a procuram mesmo sem saber bem o quê é uma verdade. A despeito disso, todos parecem concordar que existem as tais verdades. E, tudo indica que. Ao menos nesse sentido plural, ninguém se atreveria a negar isso. Seria a idéia de verdade apenas um conceito instrumental, uma ferramenta pra lidarmos com o mundo, construindo teorias também instrumentais?
A questão se complica pra valer é no confronto entre duas ou mais supostas verdades. O que fundamenta uma atribuição de verdade a um enunciado sobre qualquer fato, hipótese ou teoria? E como, do ponto de vista moral e ético, se distingue uma verdade de uma mentira? Kant teria cometido a respeito talvez seu erro mais grosseiro, afirmando que jamais um ser humano deve optar por mentir, isto seria sempre condenável. É fácil, porém, imaginar situação que prova o absurdo disso: numa ditadura sangrenta, um revolucionário se esconde na tua casa. Chega a polícia política e te pergunta: “Fulano está escondido nesta casa?” Dizer a verdade equivale a entregar o fugitivo a seus prováveis assassinos, compactuar o poder ilegítimo dos ditadores, o que é eticamente abominável.
Desse exemplo também fica claro que poder, legitimidade, ética e verdade estão inextricavelmente emaranhados.
Nietzsche pôs abaixo a idéia de que a verdade pode ser pura, e independente de qualquer ponto-de-vista humano. Em outros termos, exclui que exista qualquer verdade absoluta, pois todas as verdades vêm sempre subordinadas a interesses nunca explícitos, tantas vezes escamoteados, ou mesmo inconscientes a quem as profere. Não se nega a existência de verdades, mas apontar serem decorrentes de perspectivas, implicando relações determinadas de poder social e político. Em outros termos, verdades são sempre relativas.
Na vida quotidiana é frequente encontrar situações, familiares, sociais ou políticas de conflito entre supostas verdades, em que os defensores de uma opinião argumentam, invocando lógica e coerência, princípios éticos, religiosos, ou mesmo interpretações singulares de dados científicos, para fundamentar sua opção.
É notório o quanto esses debates são parte importante de nossas vidas. É também digno de nota o quanto as paixões interferem nele, e via-de-regra, levam a melhor sobre os supostos vetores declarados na argumentação pelos debatedores e ouvintes.
Creio ser muito bem conhecida a noção de “dono da verdade”, aquela figura estranha que jamais dá ouvidos ao que lhe digam, sobretudo caso ponha em xeque aquilo que ele/ela, ou seu grupo etc., já decidiram ser “a verdade”. Por mais que haja evidências a contrariá-los, sua opinião está previamente fechada, inexpugnável, vacinada contra qualquer refutação possível. Lembram o caso do famoso “cego que não quer ver”.
Triste constatar que essa atitude é bem comum entre políticos de qualquer lado.
Ora, mas nem só em questões ideológicas, políticas, ou religiosas pipocam seres que se julgam únicos proprietários da verdade, também entre grandes cientistas eles saltam tantas vezes: Freud patrulhava os discípulos que questionassem seus dogmas; Einstein queria que Deus não jogasse dados... Tudo indica que essa é uma fraqueza inerente ao Homo sapiens. Isso é triste? Ou devemos invocar o amor fati, e construir algo maior, dada essa nossa limitação?
Não, nada de lamentar a pequenez humana! Amor fati. É o que temos: somos seres humanos, demasiado humanos.
Não sei se a verdade pode ter algum tipo de essência, invariável no tempo. Ocorreu-me, há uns dias, uma analogia com um tipo humano, corporificado inúmeras vezes por personagens históricas, mas sempre encontradiça por toda parte.
Bem conhecida na História de Roma, a figura de Messalina. Casou-se com o imperador Claudio, aos 14 anos. Ele era seu tio, que contava 48 anos ao casarem. Não se sabe, de fonte neutra, que impacto teve essa diferença de idade no tipo de relação entre eles. O que se sabe é que a jovem nunca se limitou a ter relações sexuais apenas com seu marido. E este não a censurava por isso, pode-se até imaginar que usufruísse do transbordamento de paixões eróticas na linda, jovem e fogosa esposa.
Messalina promovia orgias públicas nas praças de Roma, numa as quais desafiou outra bela mulher a competirem por saber qual delas faria sexo pleno (com orgasmos) com maior número de homens numa única tarde. A imperatriz venceu a disputa com vinte e cinco boas fodas!
Assim é a verdade: é como Messalina, uma mulher devassa ao extremo: jamais terá dono, mesmo se o poder maior global alegar ser seu dono (como Cláudio). Qualquer um pode curtir uma foda magnífica com ela, em qualquer lugar, basta que ao acaso e as circunstâncias o favoreçam. Será que alguém sabe a priori pra quem vai o desejo de uma mulher?
Se tiver a impressão de que és “dono e senhor do material”, e de que chegou a ti em primeiríssima mão uma linda verdade, quem sabe virgem, semelhante ao que viveu Einstein ao descobrir a relatividade, aproveite bem tua sorte, teu gozo e o gozo dela. Quem sabe sejam múltiplos, e te propiciem mais incontáveis transas.
Mas na manhã seguinte, não conte até vinte, te afastes dela! Messalina morre se tu a prenderes! Deixe-a livre para amar, ir aonde quiser, ser o que ela é!
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